Revista Contra-Relógio
// Brasileiros lá fora //

A mais distante e diferente Major

Edição 283 - ABRIL 2017 - FERNANDA PARADIZO

Participar da Maratona de Tóquio é muito cansativo, pela longa viagem, mas vale a pena por se correr em outro mundo, em termos de cultura e hábitos.

A Maratona de Tóquio abriu oficialmente a temporada do ano das Majors. A única versão oriental dos 42 km do maior circuito de maratonas no mundo aconteceu no dia 26 de fevereiro e reuniu não apenas grandes atletas da elite, mas também amadores que hoje correm em busca do sonho de completar as seis provas da série, composta por Tóquio, Londres, Boston, Berlim, Chicago e Nova York.
Embora Tóquio seja a prova mais jovem do circuito, com apenas 11 anos de existência, o evento, que passou a fazer parte das Majors somente em 2013, vem provando que a distância entre os continentes, a barreira da língua e a grande variedade cultural não são empecilhos para que os corredores do mundo inteiro desembarquem na capital japonesa em busca do sonho dos 42 km.
E o evento impressiona não apenas pela quantidade de participantes, cerca de 37 mil, mas principalmente pela organização e apoio da cidade no dia da maratona, transformando todo o trajeto num emaranhando de gente vibrando e torcendo. Cerca de 1,6 milhão de espectadores vão às ruas para apoiar os corredores.
Como toda grande prova, o calendário de Tóquio é repleto de atrações. São 3 dias de feira, realizada no imponente pavilhão de exposições Tokyo Big Sight. A Asics é a patrocinadora oficial e tem um stand com produtos oficiais, com roupas, tênis e muitos produtos típicos japoneses com o logo da prova. Um grande atrativo para aqueles que querem levar uma lembrança bem ao estilo para casa.
A programação segue na manhã do sábado, com a FriendShip Run, prova de 4 km realizada na área externa no pavilhão de exposições e que tem o objetivo de dar boas-vindas aos estrangeiros. Na parte da tarde, é a vez da Parada das Nações, um desfile das delegações que acontece próximo ao local da chegada da maratona.
O trajeto deste ano sofreu algumas alterações para tornar a prova mais rápida. Com a eliminação da passagem por algumas pontes, aumentou a expectativa de recordes. O queniano Wilson Kipsang não decepcionou. O atleta, que já foi dono da melhor marca mundial e que até acreditava em quebrar mais uma vez a marca, foi o campeão com o tempo de 2:03:58, estabelecendo não apenas o recorde da competição mas também o melhor tempo de maratona conseguido no Japão. O antigo recorde pertencia a Dickson Chumba, campeão em Tóquio em 2014 com 2:05:42.
A queniana Sarah Chepchirchir controlou a prova do começo ao fim e venceu em 2:19:47, também recorde; o anterior pertencia à compatriota Helah Kiprop (2:21:27 em 2016).

Publicidade


300 MIL INSCRIÇÕES. Como todas as Majors, ainda que a prova dê grande atenção aos profissionais, são os amadores que fazem a festa pelas ruas da cidade. Entre os 37 mil inscritos, a Maratona de Tóquio reuniu cerca de 7 mil corredores internacionais, entre eles 72 brasileiros, e promete aumentar ainda mais o número de estrangeiros.
Vale dizer que Tóquio recebe cerca de 300 mil inscrições por ano de japoneses na tentativa de conseguir uma vaga. Para os estrangeiros, além da agência oficial do país, há mais três outras formas de se inscrever: por caridade, por sorteio ou por índice técnico (somente 200 vagas).
Com a dificuldade de conseguir uma inscrição, a engenheira paulista Fernanda Bocato não pensou duas vezes quando um amigo foi um dos poucos sorteados para correr a prova. Junto com o noivo Daniel Luvizotto Natel, ela recorreu à única agência oficial no Brasil, a Kamel, para conseguir a vaga. Para quem tem a meta de correr as seis Majors, Tóquio caiu como uma luva para o casal e atendeu a todas as expectativas que tinha em relação ao evento. "Esperava uma prova bem organizada em todos os sentidos, desde a feira até o pós-prova. Todas as expectativas se confirmaram", conta Fernanda, que ficou surpresa com a expo. "Esperava algo menor, achei muito legal eles terem uma 'lojinha' da maratona com vários itens diferentes e que remetiam à cultura do país. Tinha até quimono."
Mas apesar da variedade e diferença de produtos em relação a outras provas do mundo ocidental, Fernanda acha que loja oficial fica um pouco a desejar quando comparada a outras grandes como Nova York. "Fomos no primeiro dia de entrega do kit, bem no começo, e já estavam ficando sem opções de tamanho de algumas peças, como o casaco 'oficial'", conta ela, que destaca o fato de os preços no Japão serem bem mais atrativos.
Ainda que a adaptação ao horário e o cansaço da viagem pesem, seguir para o outro lado do mundo e não aproveitar tudo o que a cidade e o evento oferecem é um desperdício. Por isso mesmo, Fernanda e Daniel decidiram participar da corrida no sábado. "Foi melhor do que o esperado. Realmente era uma confraternização. O pessoal de outros países vinha pedir para tirar foto com a gente, principalmente os orientais."


MUITOS FANTASIADOS. Sobre a prova, Fernanda só lamenta a largada um pouco demorada devido à quantidade de gente e a dificuldade de achar a baia. "Para encontrar o meu curral foi meio complicado. Os policiais na rua não falavam inglês. Eles só indicavam quando eu mostrava meu número. Acabei ficando bem atrás e não consegui sair no meu ritmo. Demorei 12 minutos para passar na largada", explica a corredora, que ficou surpresa ao ver tanta gente fantasiada numa maratona.
Apesar da dificuldade na largada, ela completou bem Tóquio, sua terceira maratona, e gostou do trajeto. "O percurso é bom. Havia poucas subidas, mas não gostei muito das curvas e passar pelo mesmo lugar no sentido contrário. Mas em geral a prova fluiu bem", explica ela, que não imaginava tanta gente nas ruas, em função do frio. "Isso ajuda o psicológico. Eles ficam com aqueles batedores de ar gritando a mesma coisa em coro. É diferente. Em alguns pontos parecia uma torcida organizada."
O objetivo, que era terminar em 4h20 e melhorar em 3 minutos seu recorde pessoal, foi mais do que alcançado. Fernanda finalizou os 42 km em 4:06. "Eu olhava meu relógio e via que estava mais rápida, porém não sentia esforço. Cheguei a pensar que meu relógio estava meio perdido com o GPS. Desencanei de olhar e curti a prova. Fui perceber que estava muito melhor do que o esperado no km 38. Aí apertei."
Daniel, que não teve dificuldades para achar seu local de largada com a ajuda dos voluntários e sinalização, se empolgou no início e começou a corrida um pouco mais forte do que imaginava. "O percurso é bem rápido e passa por poucos pontos marcantes e que remetem ao Japão. Em geral, corremos no meio de muitos prédios. Os templos são muito bonitos, e os postos de hidratação sempre organizados e limpos", conta Daniel, que também conseguiu o recorde pessoal, com 3h13, bem abaixo da marca pretendida, que era de 3h20.
Apesar da estada por apenas 6 dias, o casal conseguiu curtir um pouco a cidade, mas deixou Tóquio com a sensação de querer mais. "A cultura dos japoneses é algo que merece menção especial. O sistema de transporte, a educação e o esforço que fazem para se comunicar, quando a língua não ajuda, são impressionantes. Conhecemos os bairros mais famosos e a cidade de Quioto (viagem de um dia), que tem outras características comparadas a Tóquio, mas que é igualmente surpreendente."


EMBALADA PELO PÚBLICO. Outra que se surpreendeu com a prova foi a dentista Tássia Affonso Sampaio, que é de Nova Friburgo, e que correu sua primeira maratona no ano passado, em Santiago. De lá para cá, fez Buenos Aires em outubro e agora Tóquio, onde conseguiu o melhor tempo na distância, com 4h12.
Os motivos que a levaram a pegar dois voos e embarcar numa viagem para o outro lado do mundo, desafiando o fuso de 12 horas a mais em relação ao horário de Brasília, são os mesmos que hoje a maioria dos corredores tem. Ou seja, completar as Majors. "Eu sou uma grande sonhadora e coloquei na minha cabeça que quero correr as 6 grandes, não importa o tempo que levar pra completar. Escolhi Tóquio para eliminar logo a mais difícil, pela distância, e acredito que a mais cara", conta Tássia.
Ainda que a diferença de fuso pese bastante para a maioria, a corredora "quebrou" a viagem com uma parada maior na Holanda, o que ajudou a não sentir muito o horário e o desafio da troca do dia pela noite. "Sou uma pessoa bem agitada e não tive problema algum com o fuso. Com a viagem sim, porque é longa. Minhas pernas e minha coluna reclamaram o tempo todo. Fiz conexão em Amsterdã e fiquei três dias por lá. Acredito que esse planejamento possa ter ajudado, porque já 'ganhei' 4 horas de fuso."
No dia, ela também demorou para achar o curral de largada. "Ainda bem que fui com uma hora de antecedência", diz Tássia, que demorou até o km 3 para conseguir imprimir seu ritmo e terminar a prova em 4h11, seu recorde, mas com a sensação de que poderia ter ido melhor se não fosse as filmagens feitas pelo caminho. "Quando eu vi aquele povo todo na rua, tive que filmar. Eu queria aproveitar e curtir todo o percurso", conta ela, destacando que o apoio do público é a melhor parte da prova. "É emocionante. É incrível como tem gente durante todo o percurso batendo palma, gritando 'gambate' (boa sorte), oferecendo balinhas, biscoitinhos, spray para dor."
A organização e a limpeza nas ruas também é algo que chamam a atenção, além da educação do povo. "Não há gente querendo atravessar as ruas. Postos de hidratação funcionando bem. Banheiros sem filas e a cada 4 km. E as ruas limpas, mesmo com a prova rolando você não vê um copinho na rua, um gel jogado no chão", lembra a corredora, que ficou 11 dias no país e conheceu também Quioto, Hiroshima e Hakone. "Já viajei para alguns lugares no mundo, mas o Japão é incrível. A cultura deles é surpreendente. São muito educados e simpáticos. A gente fica até constrangida com tanta gentileza."


MAIS UMA SUB 3H. Com 26 maratonas no currículo, sendo dez sub 3h, o leiloeiro Jacques Jochims Fernandes, voou para Tóquio em busca de completar sua quinta Major. Nascido em Porto Alegre, mas vivendo em São Paulo, ele aproveitou o resultado de 2h50 obtido em 2015 em Chicago para tentar uma das 200 vagas de sorteio do Tokyo Run as One, programa destinado aos estrangeiros e que dá prioridade aos melhores tempos, independentemente de faixa etária.
Para encarar a longa viagem, Jacques adotou a estratégia de dormir o máximo possível no trecho de 14 horas de São Paulo a Dubai e também na espera para o próximo até Tóquio, que sairia 6h30 depois. No segundo, a estratégia era tentar ficar acordado. "Foi bastante difícil. De 15 em 15 minutos eu me levantava para andar ou me alongar, pois estava pegando no sono. Mas consegui e fez toda a diferença", conta o corredor, que chegou a Tóquio às 17h30 e dormiu só às 22h30 para acordar "zerado" no dia seguinte e já no fuso local.
Restava então pegar o kit, aproveitar um pouco a cidade e relaxar para o domingo. Num dia de temperatura ideal -9 graus na largada e 13 na chegada -, ele fechou a prova em 2h48, seu novo recorde. "Minha prova foi perfeita. Estava bastante focado, tinha treinado muito e realmente estava indo para o tudo ou nada", comemora o corredor, que sentiu o esforço a partir dos 30 km. "Aí decidi fazer como um grande amigo e ótimo corredor, o Thiago Pontes, dedicando, a partir desse ponto, um quilômetro para cada pessoa da família ou amigos marcantes e significativos. Isso me deu um ânimo diferente para enganar a mente e o sofrimento."


MEDALHA ESPECIAL. Os que concluíram a sexta Major em Tóquio tiveram o privilégio de receber a Six Star Finisher Medal logo após cruzar a linha de chegada. No domingo à noite, foi realizada uma festa de confraternização, que ao final homenageou todos os que completaram as seis maratonas do circuito mundial.
A médica paulista Meiry Yanaze foi uma das que completou em Tóquio as provas da série. "Tóquio, por ser tão distante do nosso país e por ter uma cultura totalmente peculiar, já a torna especial. Acho que todos os corredores já chegam com muita expectativa. E ela supera todas as nossas expectativas, pois o povo japonês não mede esforços para fazer tudo com perfeição, educação e respeito, ao mesmo tempo em que nos mostra a sua cultura e nos fazem incorporar seus costumes", lembra Meiry, que adorou receber a medalha após a linha de chegada.
Desde a Maratona de Chicago de 2016, a The Abott World Marathon Majors (WMM) tem premiado os atletas elegíveis a receber Six Medal logo após a prova e não mais pelo correio. Além disso, houve uma mudança em relação às datas que limitavam os participantes elegíveis a receber essa medalha.
Atendendo à solicitação dos corredores, aqueles que completaram qualquer uma das Majors (Tóquio, Londres, Boston, Berlim, Chicago e Nova York) antes de 2006 também poderão computar suas provas e receber a medalha. Essa alteração na regra, que antes considerava somente as provas após a data da criação do circuito, é um reconhecimento aos corredores que participaram dessas maratonas ao longo de todos estes anos e que contribuíram para o crescimento de cada uma dessas icônicas maratonas ao redor do mundo.

Deixe o seu comentário


Publicidade

















11 3031.8664
Rua Hermes Fontes, 67
São Paulo - SP





© 1993 - 2014
Todos os direitos reservados