Revista Contra-Relógio
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A mais difícil prova das mulheres: a criação da maratona olímpica

Edição 274 - JULHO 2016 - NELTON ARAÚJO

Desafiando preconceitos sociais, ideias ditas científicas e o conservadorismo do COI, as mulheres levaram quase um século, desde a criação dos Jogos Olímpicos da modernidade, para conseguir se legitimarem como iguais em capacidade com os homens, na luta pela criação da primeira maratona só para elas.

Em 1896, quando os Jogos Olímpicos foram revividos em Atenas, a inventada "prova de maratona" era o evento que encerraria com chave de ouro a competição. A multidão lotava então o Estádio Paratenaico, esperando ver quem seria o homem mais resistente no desafio de correr a distância de 40 quilômetros, a mesma a qual, na conhecida lenda, teria matado Fidípedes.
Entre todos os concorrentes, não há registro oficial de nenhuma mulher, contudo é conhecida a saga da grega Stamatis Rovithi, ao ter largado junto com os homens, e chegando à entrada do estádio foi impedida de terminar a prova, completando os últimos metros na pista olímpica. Contentou-se a fazer a última volta ao entorno do Estádio, ainda ressoando efusivamente a vitória do grego Spiridon Louis.
O século seguinte foi de inúmeras conquistas quanto aos direitos das mulheres, possibilitando a diminuição da desigualdade entre os sexos. No entanto, levaria-se quase um século para se ver as mulheres realizando o desejo de Stamatis Rovithi, e fossem autorizadas a entrar na pista do estádio olímpico numa maratona.
Nas primeiras seis olimpíadas, gradativamente foram sendo incluídas provas mais longas no atletismo para as mulheres. Contudo, já vigorava no campo científico a tese da periculosidade da corrida de longa distancia para as "frágeis" mulheres. Um incidente na mais longa prova feminina, a dos 800 metros nas olimpíadas de 1928, quando, por conta do forte calor e da falta de preparação da maioria, inúmeras competidoras chegaram a colapso, jogadas ao chão como em uma cena de guerra, daria material para se corroborar tal tese. Os organizadores, enfim, em um passo de retrocesso, consideraram a corrida extenuante demais para o corpo feminino, e permitiram somente provas até 200 metros no seu programa olímpico.
A resistência feminina se mantivera, e ao longo das três próximas décadas elas continuariam a correr em outros eventos, e algumas fariam até maratonas de forma não oficial, mas foi a partir dos anos 60, quando, na sociedade civil, aumentava a luta pela igualdade de direito as mulheres, que as organizações atléticas passaran a sofrer maior pressão pela inclusão feminina.
O COI - Comitê Olímpico Internacioal, aos poucos, foi cedendo e, em Roma 1960, retomava a prova dos 800 metros para mulheres. E em 1972, nos jogos em Munique, já colocou em seu programa a prova de 1.500 m. Acima dessa distância poderia ser letal para as mulheres, justificava a entidade, apoiando-se nas palavras de alguns pesquisadores, ainda se lançando mão dos credos científicos do início do século.

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O CASO DE BOSTON. Um desses pesquisadores, em entrevista ao principal jornal de Boston em 1965, justificava como acertada a decisão da organização da Maratona de Boston em não aceitar a inscrição de mulheres, afinal, "estas não eram fisicamente aptas a correr uma maratona". Ao ler isso, a americana Roberta Gibb resolveu testar a teoria na prática: se preparou e, em 1966, escondeu-se atrás de um arbusto perto da largada e completou a Maratona de Boston em 3:21:25. Seu objetivo, disse ela em entrevista, não era fazer uma declaração feminista, mas sim apenas medir seu próprio potencial.
Todavia, os leitores da CR devem se lembrar de Kathrine Switzer, aquela que conseguiu burlar o sistema de inscrições de Boston, usando as iniciais de seu nome, como a primeira mulher a completar essa prova. Oficialmente, é verdade, no entanto, que foram as imagens dela tentando ser impedida pelo diretor da prova e sendo defendida pelo então namorado e seus amigos, que deram uma visibilidade pública ao ocorrido, rodando pelo mundo inteiro. Essa sim era uma declaração feminista, sobretudo quando disse "Eu acho que é hora de mudar as regras porque elas são arcaicas", logo depois da completar, tornando-a porta-voz desse movimento em favor da igualdade feminina no campo da corrida de rua.
Gradualmente, as regras começaram a mudar. Para a IAAF, a americana Elizabeth Bonner, na segunda edição da Maratona de Nova York, em 1971, foi a primeira mulher a correr os 42,2 km abaixo de 3 horas, em 2:55:22. Em 1972, as mulheres foram autorizadas a competir oficialmente na de Boston, seguindo a tendência posta pela primeira Maratona de Nova York, no ano anterior.
Todavia, o processo de inserção feminina ainda possuía seus receios. Na mesma Maratona de Nova York, em 1972, quando o diretor da prova, o lendário Fred Lebow, fora orientado pelos membros do clube organizador a fazer a largada feminina dez minutos antes, levou ao protesto veemente das seis atletas inscritas, não concordando e querendo correr lado a lado com os homens, sem qualquer tipo de vantagem. Elas se sentaram, esperando a largada masculina, e saíram junto.
Apesar disso, era inevitável a maciça participação feminina com o boom nos anos 70, inspirado pelas ideias do médico Kenneth Cooper e pelas imagens do norte-americano elegante, saudável e branco Frank Shorter, ao vencer a maratona olímpica de Munique 1972.
A corrida tornou-se o esporte mais popular durante a década de 70, e mais mulheres começaram a competir em provas de longas distâncias, mesmo sem um rosto para representá-las nos Jogos Olímpicos, como era Frank Shorter para os homens americanos. E mais se questionava o porquê das olimpíadas não terem aderido ainda à tendência.


CORRIDAS AVON. Dois eventos ao longo dos anos 70 consolidaram de vez as mulheres como uma demanda forte e expressiva no mundo das corridas. Primeiramente, a criação do primeiro Campeonato Internacional de Maratona Feminina, em 1973, na cidade de Waldniel, Alemanha Ocidental. Quarenta mulheres de sete países participaram do evento, que continuou sendo realizado a cada dois anos, com aumento expressivo de participantes de todos os continentes.
O segundo surge da participação ativa de Kathrine Switzer, não mais correndo, mas usando sua influência como principal voz a favor das mulheres. Em 1977, agora como diretora da norte-americana Fundação Esportiva das Mulheres, Switzer foi procurada por um executivo da empresa de cosméticos Avon, cujo interesse era simplesmente patrocinar um evento de corrida para mulheres.
Ela pediu algo maior: uma reunião com todos os executivos da empresa. Ao final de horas, os executivos saíram encantados com o crescimento nos números, nos tempos e toda história de luta das mulheres na corrida, e, principalmente como poderiam crescer nesse nicho de mercado, ainda mais apoiando as ideias colocadas por Kathy Switzer. Ela, por sua vez, saiu da reunião com um novo emprego: diretora do departamento esportivo da empresa e com o patrocínio necessário para investir não em uma corrida específica, mas numa série de corridas, pelo mundo afora, exclusivo para as mulheres.
Surgia o Circuito Avon de Corrida, o precursor de todos os eventos exclusivos para mulheres da atualidade. O primeiro evento foi a Maratona Internacional Avon, em março de 1978, na cidade americana de Atlanta. Este circuito foi um tremendo sucesso no final dos anos 70 e ao longo dos 80, espalhando-se por vários países, não apenas como maratona, mas com outras distâncias.
Aqui no Brasil, o primeiro aconteceu logo em 1979, no Rio de Janeiro, pelas mãos da corredora e dirigente Eleonora Mendonça, pioneira na criação da primeira Maratona do Rio de Janeiro, em 1979. Ela acabara de voltar de um longo período de residência nos Estados Unidos, onde tinha conhecido Kathrine Switzer; conciliava seu tempo entre treinos, organização de provas pela sua empresa, Printer, e espalhar o Circuito Avon para cidades como São Paulo, Brasília e Porto Alegre, e ainda tinha participado da criação do Comitê Internacional de Corredores, criado em 1978 a fim de representar os interesses das atletas, bem como ser mais um veículo de pressão junto ao Comitê Olímpico.


PRIMEIRA SUB 2H30. As mulheres não estavam apenas mais numerosas, mas também mais rápidas. A norueguesa Grete Waitz, campeã da Maratona de Nova York nove vezes, entre 1978 e 1988, na edição de 1979 tornou-se foi a primeira sub 2h30 da história das mulheres nos 42 km, cruzando a linha de chegada com 2:27:33. Diante desse fato, até a imprensa, sempre muito reticente em relação à participação feminina se rendeu.
A emblemática reportagem do New York Times, ainda em 1979, apontando o fato de que, em dezesseis anos, o recorde mundial feminino não tinha caído apenas um minuto, como na maratona masculina, porém em mais de uma hora, e se utilizando das principais conquistas de Grete Waitz - que não era muito ativa em prol do movimento feminista - chegou à conclusão óbvia: não havia motivos para continuar não acontecendo a maratona olímpica para as mulheres.
As principais entidades do mundo do atletismo foram aceitando e incorporando a pauta da inclusão feminina nas provas. O principal desses endossamentos foi da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) e de seu presidente, o ex-atleta holandês Adriaan Paulen, feito publicamente em seu congresso anual, em 1979. Era a maior fonte de pressão para com o impassível Comitê Olímpico, pois uma de suas responsabilidades é de recomendar novos eventos de atletismo para o COI.
E, sabendo das dificuldades de mudar as mentes do COI de uma só vez, Paulen investiria em incluir cada evento de longa distância gradativamente: primeiro, os 3.000 m, na próxima olimpíada, os 5.000 m e na seguinte, os 10.000 m. E aí, por fim, a inclusão da maratona feminina.


PRESSÃO DA IAAF. Planejamento modificado ao assistir ao Campeonato Internacional de maratona feminina em novembro de 1979, em Tóquio, quando ficou encantado com o nível das atletas, anunciando ali mesmo seu lobby pela inclusão dos 3.000 m e da maratona de uma vez só. Em seu discurso, o presidente da IAAF afirmava a força e a qualidade das mulheres, as quais terminariam em alto nível quaisquer provas masculinas, assumindo a capacidade das mulheres, com uma gradual e cuidadosa preparação, em participar em eventos com as mesmas distâncias disponíveis aos homens até então.
Não obstante todo o lobby de Adriaan Paulen, anunciando seus próximos campeonatos mundiais e europeu de atletismo já com a inserção feminina, havia sua pressão junto ao COI, cujos membros continuariam sua política conservadora de protelamento, sobretudo os membros do Leste Europeu, capitaneados pela então União Soviética. E divulgaram, ao final de 1979, a necessidade de estudos mais respaldados de instituições consagradas, para a definição do assunto, tendo como horizonte as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.
A resposta da comunidade científica foi imediata e à altura. Dando um ponto final no intermitente debate sobre a saúde da mulher diante de eventos de longa distância, travado desde década de 60, o principal instituto de pesquisa de saúde do esporte, o American College of Sports Medicine, emitiu em janeiro de 1980, uma declaração que dizia: "Não existe nenhuma evidência científica ou médica conclusiva indicando que corridas de longa distância sejam contraindicadas para atletas do sexo feminino saudáveis e treinadas." E concluía soltando uma verdadeira bomba ao conservadorismo do COI, ao afirmar: "Recomendamos a autorização para mulheres competirem a nível nacional e internacional nas mesmas distâncias dos homens." Mais de oitenta anos depois, enfim, o mito da fragilidade da mulher caía por terra.



MÁ VONTADE DO COI. O Comitê Olímpico, após esse duro golpe, reconheceria e incluiria a inserção feminina nas suas provas? Calma, eles não se renderiam assim tão fácil. Tornou-se evidente o mito de uma pretensa preocupação para com as mulheres pelo COI, quando, refutado o seu principal argumento para não inclusão delas na maratona olímpica, eles não se deram por vencidos e fizeram uma manobra usando seu próprio regulamento.
Na Carta Olímpica, havia o dispositivo no qual os eventos femininos só poderiam ser incluídos se fossem oficialmente praticados em 25 países em pelo menos dois continentes. Assim, afirmavam estes, não havia demanda suficiente para a inclusão. Isso foi novamente refutado: já em 1979, a Maratona Feminina do Circuito Avon, na cidade alemã de Waldiniel, atraiu mais de 250 participantes de 25 nações, ignorado solenemente pelo Comitê Olímpico.
Enquanto o Circuito de Corridas Avon garantia uma base popular na participação do esporte, o Comitê Internacional de Corredores trabalhava para assegurar um lugar para a elite feminina. E logo, a pressão sobre o COI começava a vir além dessas entidades e da imprensa, mas também de políticos, como senadores norte-americanos e patrocinadores, como a Nike, anunciando páginas inteiras nas principais revistas americanas e fazendo lobby pelas mulheres na maratona olímpica.
Obviamente, os interesses desses dois últimos grupos iam além de uma genuína e até ingênua vontade de representar tal demanda. O sucesso do Campeonato Mundial da IAAF, em 1981, na cidade de Roma, só pressionava a opinião pública frente ao silêncio ensurdecedor dos organizadores olímpicos, que relutavam como podiam, adiando o máximo possível a discussão nas reuniões de seu conselho executivo.


BOICOTE EM 1980. O COI poderia suportar a pressão de políticos, entidades, imprensa e até empresas, mas dificilmente aguentaria a pressão da opinião pública. E no primeiro dia de agosto, enquanto as câmeras que não tinham boicotado as Olimpíadas de Moscou (1980) transmitiam sua maratona masculina, outras tantas apontavam para a terceira maratona Avon, realizada em Londres no mesmo dia e hora da prova russa, com a presença de mulheres de 27 países, e onde as cinco primeiras colocadas terminariam abaixo de 2h40, para espanto do público.
Era mais um tiro certeiro da responsável pela organização do evento. Sim, Kathrine Switzer, que proferiria outra frase tão impactante quanto à dita em 1967: "Estamos tentando provar às pessoas que as mulheres são tão adequadas, ou até mais adequadas, quanto os homens para a maratona." A repercussão foi gigantesca na imprensa internacional, inclusive entre países que não tinham boicotado os Jogos Olímpicos de 1980, chegando ao ponto da maratona masculina ficar relegada a uma ou duas notas no canto da seção de esportes.
O Comitê Olímpico, para abrandar a pressão, marcou para fevereiro de 1981 uma reunião especial do seu conselho executivo, quando oito países votariam se a criação da maratona feminina seria levada para a reunião geral do COI, em setembro do mesmo ano. Espanha, Japão, Nova Zelândia e Índia desembarcavam em Los Angeles já certas do voto favorável às mulheres. Do outro lado, União Soviética e seus aliados políticos, Panamá e Romênia, também chegavam convictos, mas contra a proposta. E a delegação da Bélgica estava cheia de dúvidas e incerta quanto ao seu voto. Depois de alguns dias de reunião, foi marcada para o dia 23 de fevereiro a votação final, onde eram necessários cinco votos para a emenda seguir ao congresso geral, na cidade alemã de Baden-Baden, em setembro.


VITÓRIA POR 7 A 1. Kathrine Switzer, presente em Los Angeles para acompanhar o desenrolar da reunião e aflita quanto à incerteza belga, não aguentou esperar, e foi ao encontro do delegado geral da Bélgica na manhã do dia da votação. Parou-o no meio do corredor e pediu alguns minutos, e começou a usar toda sua retórica a favor da maratona feminina, enquanto o representante fazia algumas notas. Ao final da conversa, ela agradeceu, e ele, mudo, foi para a reunião. Se Switzer foi quem o convenceu, ou mais, se este convenceu os outros países não se pode afirmar. Mas, às 18h30 do dia 23 de fevereiro, sete países votaram a favor da criação da maratona feminina, e somente a URSS votou contra.
Já em Baden-Baden, a escolha da sede das Olimpíadas em 1988 em Seul foi ofuscada pela eleição da primeira mulher no corpo de membros do Comitê Olímpico. No entanto, esse momento também ficou em segundo plano por um discurso eloquente e ousado do então campeão olímpico dos 1.500 m, o inglês Sebastian Coe (atual presidente da IAAF), onde pedia independência às Federações para criar seus próprios requisitos de elegibilidade olímpica, abrindo caminho para maratonistas e outros atletas receberem prêmios e pagamentos, enquanto ainda permaneceriam elegíveis à concorrência olímpica, pedido aprovado pelo COI.
Mas este também foi ofuscado pela mídia por uma última deliberação: a da aprovação, em caráter definitivo, da criação da maratona feminina, já autorizada, junto com a prova de 3.000 m, para as Olimpíadas de Los Angeles em 1984. Os 5.000 m e os 10.000 m seriam inseridos apenas no programa olímpico dos Jogos na Coréia do Sul.
Podia-se ouvir o suspiro aliviado de todas as mulheres nas quais tinham lutado por esse momento. Finalmente, eles cruzavam a linha de chegada da maior e mais difícil maratona de suas vidas, a do respeito e aceitação quanto a suas capacidades atléticas. Contudo, não podiam descansar muito: tinham menos de dois anos e meio para se preparar para outra maratona. A de fato, disputando os 42,195 km no calor e umidade de Los Angeles. Em algum lugar, a grega Stamatis Rovithi, estaria orgulhosa de, enfim, ver seu desejo realizado: a de uma mulher entrar no Estádio Olímpico, e, aplaudida por todos, cruzar a linha de chegada em uma maratona olímpica.



A PRIMEIRA MARATONA
OLÍMPICA FEMININA
No dia 5 de agosto de 1984 foi dada a largada no Estádio Olímpico, o Coliseu Memorial de Los Angeles, para a primeira maratona olímpica feminina da história, contando com 50 atletas de 28 países. Entre elas, o favoritismo estava voltado para a estrela norueguesa Grete Waitz, atual campeã mundial e "rainha" da já famosa prova de Nova York. Além dela, a também norueguesa Ingrid Kristiansen, vencedora da Maratona de Londres naquele ano e que, em 1985, viria a quebrar o recorde mundial (2:21:06) dos 42 km, integrava o grupo das favoritas. Assim como a portuguesa Rosa Motta, multicampeã da Corrida de São Silvestre.
Apesar de possuir a melhor marca mundial na época (2:22:43 em Boston 1983), a americana Joan Benoit era vista com certo receio por boa parte da imprensa especializada. E mesmo sua impressionante recuperação a uma lesão séria no joelho, correndo - e vencendo - os trials americanos, no início de 1984, apenas dezessete dias após uma intervenção cirúrgica na região, não convenceram os especialistas, que duvidavam se ela poderia correr no mesmo nível das noruguesas.
A cidade de Los Angeles no dia apresentava um clima nada propício para as corredoras, com uma média de 32º C e mais de 85% de umidade. Antes da largada, foi feito um desfile com as atletas, apresentando uma por uma. Por ser o país anfitrião, as atletas dos EUA desfilaram por último, e, respeitando uma ordem decrescente de tamanho, Joan Benoit foi à última a ser apresentada.
Dada a largada, Benoit, incomodada com o pelotão cercando-a, limitando seus passos (ela inclusive tropeçou), tomou uma decisão radical: destacar-se do pelotão e, como ela disse, fazer a sua prova. Com exceção do grande maratonista norte-americano Bill Rodgers, agora acompanhando a prova sentado numa moto como comentarista, todos seus pares consideraram a decisão de Benoit fadada ao fracasso. As atletas favoritas duvidavam da capacidade da americana em correr sozinha por tanto tempo naquele calor, e assim permaneceram sem retrucar o ataque, pois logo em breve a alcançariam.
Não aconteceu: Joan Benoit, acostumada a correr sozinha, foi se distanciando até o momento no qual, mesmo com Grete Waitz saindo em disparada atrás do tempo perdido, já era tarde demais. A americana de 1,57 m, com seu inesquecível boné branco, agora voltava à pista Olímpica para a última volta na primeira e folgada posição. Mas só veio a relaxar e a saudar a multidão presente nos últimos 200 metros, completando a maratona em 2:24:50 (tempo no qual venceria 13 das 25 maratona olímpicas masculinas da história...).
Grete Waitz conseguiu diminuir a diferença absurda de Benoit, e completou em 2:26:18. E, em uma prova excepcional, Rosa Motta ultrapassaria Ingrid Kristiansen nos últimos quilômetros e completaria o quadro de medalhas, conseguindo o bronze com o tempo de 2:26:57.


CENA CONFLITANTE. Não obstante o clima adverso, apenas seis atletas deixaram de finalizar a prova. A brasileira Eleonora Mendonça, citada neste texto, completou na 44ª posição, sete colocações atrás da suíça Gabriela Andersen-Schiess. Esta, por sinal, mudou o estado de ânimo dos eufóricos torcedores, pois completamente depletada (ela deixou de pegar água em algumas estações) e à beira do colapso, cambaleou durante seis minutos os últimos 250 metros. Aos 39 anos na época, seria provavelmente sua última olimpíada, e não aceitou a ajuda médica, para não ser declassificassada.
As imagens foram veiculadas por todo mundo ao vivo, chocando torcedores e telespectadores. Antes de, infelizmente, ser usada como material de motivação e superação por corredores e pela imprensa atualmente (esquecendo-se de Joan Benoit, cuja história é ainda mais impressionante quanto à superação), quase destruiu a conquista feminina da maratona olímpica, pois alguns membros do COI elevaram o tom e se valendo daquela cena, questionaram a capacidade de uma maratona para mulheres, esquecendo-se dos inúmeros colapsos e chegadas no limite da capacidade protagonizados por atletas masculinos. No entanto, levou algum tempo para o COI atenuar a cena de "Gaby" Andersen e considerar aquilo um fato atípico entre todas as concluintes.

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