Revista Contra-Relógio
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A força da mente na melhora da performance

Edição 221 - FEVEREIRO 2012 - FERNANDO BELTRAMI

Enfrentar uma prova não é tarefa fácil. Todas as nossas sensações são contrárias ao esforço, o corpo pede que se pare a todo o instante e é preciso se manter forte para resistir à tentação de diminuir o ritmo e deixar aquela sonhada marca pessoal para outro dia. Algumas atitudes ajudam nesses momentos de negociação com aquela voz interior, que às vezes parece não gostar de correr.

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Se correr é um aprendizado, uma competição ou mesmo um treino mais forte nos ensina entre outras coisas a lidar com nossos medos, fraquezas e angústias. Treinamos para preparar nossos corpos para aguentar uma determinada carga de trabalho, mas também para nos acostumar com a ideia de que somos capazes de realizar tal feito. Basta pensar em seus primeiros dias como corredor, tentar imaginar como assustavam naquela época treinos semelhantes aos que você faz hoje. Lenta e constantemente vamos nos acostumando com volumes cada vez maiores, treinos mais intensos e provas mais duras.


É comum ouvir algumas pessoas comentarem coisas como "se eu sofro deste jeito para fazer a prova em 50 minutos, imagina os corredores de elite, que correm em 30?". Mas essa mesma pessoa se esquece que quando ela correu sua primeira prova, em uma hora, 50 minutos também pareciam uma barreira intransponível de sofrimento. Se, por um lado, treinar nos prepara no nível físico para lidar com a dor e o sofrimento que vem junto com a corrida, algumas estratégias auxiliam a enfrentar estas barreiras no nível mental.


Existem duas maneiras distintas e complementares para se atingir o sucesso nesta empreitada, ainda que elas pareçam estar em contradição: a primeira é aumentar a tolerância à dor e ao sofrimento; a segunda, felizmente, é aprender a sofrer menos durante uma prova.



SOFRIMENTO É OPCIONAL: Matt Fitzgerald, dentro do excelente "Brain training for runners" (Treino de cérebro para corredores, em tradução livre), faz uma colocação interessante sobre o tema, que se reflete um pouco naquele dito "a dor é obrigatória, o sofrimento é opcional". Matt distingue dor e sofrimento da seguinte forma: as dores são as sensações puras de desconforto, como os músculos travando, a queimação nos pulmões. Já o sofrimento é a nossa reação a esta sensação de dor, e de certa forma, o nosso "medo" da dor. A mesma quantidade de dor vai causar um grau diferente de sofrimento em corredores distintos, com tolerância diferente. E a dor estará lá, sempre que puxarmos nossos limites. Já o sofrimento é algo sobre o qual podemos tentar exercer algum nível de controle, como veremos a seguir.


Não que um corredor tenha que ser um masoquista, e toda a dor ser bem-vinda, longe disso. O fato é que o corredor deve aprender a aceitar a dor, pois ela faz parte do esporte que escolheu. O grande triatleta Mark Allen disse uma vez que só se tornou um atleta de elite quando percebeu que para vencer ele não podia dar (em termos de esforço) somente o que ele estava disposto a oferecer, e sim o que a prova exigia.


Correr dói, e tentar correr mais rápido que jamais se correu antes irá doer mais. O corredor deve estar consciente e pronto para isso, e até mesmo estar ansioso por este momento, ao invés de temê-lo. Aquela ambição nos olhos de quem decide que irá fazer sua primeira maratona, meia ou ultra deve estar presente também na linha de largada, e durante toda a prova. A qualidade de uma competição não deve ser medida pelo tempo simplesmente, e sim pela quantidade de esforço e empenho que um corredor coloca nela. Se sair de uma prova achando que deixou apenas 80% do esforço que poderia ter colocado, o corredor não deve se dar por satisfeito, mesmo que o tempo tenha sido bom. O contrário também é verdadeiro: uma prova dura, com condições adversas, terá sido uma boa prova se o corredor tiver se esforçado totalmente durante o percurso, independentemente do que diga o relógio.


Nada acontece numa prova que já não tenha sido praticado em treinos. A motivação e excitação causadas pelo público e pelos outros competidores oferecem um estímulo a mais, é verdade, de forma que sempre se consegue correr um pouco mais forte, ou suportar um pouco mais o sofrimento em uma prova do que em um treino onde não há ninguém por perto.



MEDO DO DESCONHECIDO: Mas quando passa pela linha de largada, o corredor precisa ter a certeza de que está bem preparado, e de que não irá encontrar pela frente nenhum monstro desconhecido, pois nós tememos o desconhecido mais do que aquilo que conhecemos. É quase como ter medo de ter medo.


Diversos estudos já mostraram que nossa performance aumenta à medida que nos familiarizamos com determinada tarefa, como um teste de 10 km de corrida, porém o desempenho volta a cair assim que passamos a não saber mais informações de tempo, distância e velocidade, por exemplo. Aliás, é por isso que às vezes sofremos tanto com placas de quilômetros faltantes! Mas, além do estar familiarizado com a tarefa em termos de tempo e distância, estamos falando de estar preparado para a dor e o sofrimento que ela exige.


"Train hard, run easy" (treine duro, corra fácil) é uma frase atribuída ao modo queniano de treinar (existe até um livro com esse nome), e é a mais pura verdade. O que muitos treinadores propõem, com sucesso, é que o corredor pratique, antes do seu evento principal, uma ou duas provas/treinos de preparação. Estes nada mais são do que sessões chave, a sessão de treino mais dura antes da prova, onde o corredor termina com a certeza de que o que vem pela frente não poderá ser pior do que aquilo, e assim já não teme mais a competição.


E se já estamos conscientes de que haverá dor, e de que haverá algum grau de sofrimento, o próximo passo é justamente nos livrarmos do sofrimento desnecessário durante a prova, para não correr o risco de diminuir o ritmo e afetar negativamente o desempenho.


Não são raras as histórias de corredores relatando "apagarem" durante suas provas, dizendo que não lembram do que aconteceu, que simplesmente suas pernas não obedeciam. Alguns chamam de "zona", "transe", um estado emocional alterado em que o único foco é a corrida, e tudo parece fluir. Não é fácil chegar num estado de plenitude deste porte, mas algumas estratégias encurtam o caminho, e novamente aqui recorreremos a alguns dos conselhor de Matt Fitzgerald.



ESTRATÉGIAS: De início, uma boa prova precisa de um plano. Falhe ao planejar e estará planejando falhar, é o que dizem. Uma competição importante merece um treinamento específico, com pico de treino algumas semanas antes, e um período adequado de polimento, para que o corpo se recupere dos treinamentos e esteja em sua máxima capacidade no dia certo. Além disso, parte do planejamento também inclui saber o que se fazer durante uma corrida, em termo de tempo e parciais de ritmo. Nada é mais gratificante durante uma prova do que ter metas de passagem nos quilômetros e verificar que se está conseguindo cumprir o planejado. Aliás, estabelecer objetivos que são coerentes com nossa capacidade é outra chave importante para o sucesso.


Escolher os momentos para correr de verdade, ao invés de competir com frequência, é outro ponto de extrema importância. Com a popularização da corrida, o calendário está inundado de provas de todos os tipos e tamanhos, e é fácil cair no erro de competir constantemente em busca de uma marca melhor. Ter outra chance no final de semana seguinte quer dizer que você pode desistir agora, não tem problema. É incrível o poder que essa sugestão tem nas nossas mentes.


Priorizar uma prova e transformá-la numa chance única muda a maneira como você encara o evento, e aumenta as suas chances de correr em sua máxima capacidade o tempo todo. É importante estabelecer quais provas são importantes e quais não são. Os eventos devem ganhar importância conforme o ano (e seu ciclo de treinos) avança, pois seu condicionamento também estará aumentando, até culminar com performances máximas na prova alvo de seu planejamento.



PENSAMENTOS NEGATIVOS FORA: Ao longo deste processo, o corredor vai precisar de ajuda, que deve vir na forma de argumentos para combater os pensamentos negativos, os medos que o assombram antes da prova e o fazem diminuir o ritmo de corrida. E não há argumentos melhores nestas horas do que suas marcas anteriores, seus melhores treinos antes da prova. Esqueça os treinos que você não fez, pois eles não lhe ajudarão em nada; é preciso focar no que foi efetivamente realizado, porque é esta base que está carregando suas pernas. Conforme o ciclo de treino avança, a confiança do corredor de que conseguirá cumprir suas metas também deve aumentar, e esta é a melhor arma para combater os medos e angústias que brotam durante a prova.


Finalmente, precisamos falar das horas antes de uma grande performance. Estar nervoso é natural, é seu corpo se preparando para o que está por vir. A melhor coisa a fazer para manter o nervosismo em níveis aceitáveis é experimentar diferentes rotinas. Descubra qual o café da manhã que funciona para você; de repente torradas com geléia sejam ótimas para seu colega de treinos, mas um prato de massa com atum faça mais o seu estilo. Fique com seus colegas se isso lhe fizer bem, mas se isole para um lugar longe da multidão se o tumulto lhe deixar ansioso. Analise sua manhã pré-prova, elimine rituais que lhe prejudicam e encontre aqueles que deixam seu corpo e mente, literalmente, em ponto de bala.


E apesar de tudo o que dissemos, do foco, do planejamento, da tolerância à dor e tudo o mais, a corrida precisa ser necessariamente prazerosa, caso contrário não há sentido na prática. Tudo o que falamos até agora deve ser feito num nível em que corredor ainda consiga obter satisfação com o esporte. Mais do que focar simplesmente num resultado, numa marca, o corredor deve apreciar todo o processo de treinamento. É a diversão de buscar uma marca, conquistá-la, buscar uma nova, quem sabe falhar para ter a chance de tentar novamente. Este é o ciclo que envolve as pessoas com a corrida, e é por isso que treinadores incentivam seus alunos a competirem, mesmo que seja contra o relógio e não contra os demais participantes da prova.

7 Respostas para “A força da mente na melhora da performance”

  1. Sensacional reportagem, sobretudo por eu estar prestes a correr minha maratona. Materializaram muito do que eu imaginava e pensava, e não poderia ou saberia transcrever.

  2. EU JA FIZ DUAS MEIA A PRIMEIRA QUE FIZ FOI TUDO QUE ESTA ESCRITO MAIS FUI ATE O FINAL!!!!!
    E A SEGUNDA QUE FIZ JA FOI MAIS TRANQUILA!!!!!!

  3. Muito bom!!!

  4. […] Força da mente na melhora da performance…leia mais! […]

  5. Excelente matéria. Comecei a correr faz 3 meses, já fiz duas provas de 5 Km e o texto descreve exatamente o que está ocorrendo comigo, o medo de sentir dor e os erros no planejamento da prova. Quando citou o sofrimento diante da ausência de placas de kilometragem parecia que tinham visto a minha última corrida, achei que a falta da placa dos 3 Km era um crime, abalou meu psicológico.

  6. Adorei a reportagem,muito bem escrita,todo sentimento de corredor estreiante. Mim vi nessa matéria. Preciso ficar sozinha na largada, pra concentar.

  7. Excelente matéria, e quem pratica esse esporte maravilhoso, sabe muito bem do que estamos falando. todo desafio depende de planejamento,se fizer isso…. não tem como dar errado. comecei caminhando, trotando, 3k, 5k, 10k, 16k e estou prestes a fazer a minha primeira meia maratona, e escolhi a do Rio de Janeiro dia 08/07/2012.
    O mais importante de tudo isso…. e a saude, o prazer, novas amizades, conhecer outros lugares e desfrutar de belas paisagens.
    Simples assim, temos que fazer da corrida um momento prazeroso, abraço a todos.

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