Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

A evolução do recorde mundial de maratona

Edição 254 - NOVEMBRO 2014 - NELTON ARAÚJO

No dia 28 de setembro, o queniano Dennis Kimetto se tornou o primeiro homem a correr os 42 km em menos de 2h03, em Berlim. Em 106 anos, por 40 vezes a marca foi superada.

A maratona está em uma fase extraordinária e sem precedentes. Prova após prova, se espera menos disputas pela vitória e mais a busca do recorde mundial. A imprensa especializada já não discute mais se o homem é capaz de superar a barreira das 2 horas, mas quando isso irá acontecer.
Se a maratona em si tem sua linda e surpreendente história, a superação dos melhores tempos é também objeto para análise histórica. Pois, se compararmos com a primeira marca oficialmente registrada pela IAAF, 2:55:18 completados pelo americano Johnny Hayes nas Olimpíadas de Londres em 1908, são quase 53 minutos de diferença em menos de 106 anos de competição.
Genética, tecnologia, formas de treinamento, tudo isso influencia nessa enorme diferença entre Hayes e Kimetto. Apontar uma simples explicação para um sistema tão complexo é leviano e desonesto para com os leitores. No entanto, é interessante olharmos como se deu a progressão destes 40 recordes mundiais de lá pra cá.

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O PERÍODO PRÉ IAAF. A maratona moderna começou nas Olimpíadas de 1896, mas não podemos esquecer que houve duas seletivas para definir os selecionados. Assim, o primeiro resultado de maratona não foi o do lendário grego Spiridon Louis, mas sim de seus compatriotas Kharilaos Vasilakos, que venceu a primeira seletiva no tempo de 3h18 e de Ioannis Lavrentis, ganhador da segunda em 3h11. Spiridon Louis foi assim o melhor terceiro tempo da história, com 2:58:50 (alguns historiadores dizem que veio daí a mística do desejo de ser sub 3h numa maratona).
Entre 1896 e 1908, apesar de vários outros corredores baixarem o tempo de Spiridon, foi um período em que não foram considerados pela IAAF recordes mundiais, dado que a distância da prova era de aproximadamente 40 km. Apesar dos conhecidos e esdrúxulos 42,195 km serem padronizados apenas em 1921 pela instituição, esta considera a marca de 2:55:18 feita pelo americano Johnny Hayes, nas Olimpíadas de Londres, como o primeiro recorde oficial na maratona, pois nessa prova o percurso teve a distância que foi padronizada treze anos mais tarde. O tempo dessa prova seria ainda melhor e teria outro dono: o do italiano Dorando Pietri, que concluiu em 2:54:46, mas por receber ajuda de oficiais de corrida no final da prova, foi desclassificado.
De 1908 até 1921, o melhor tempo de maratona foi quebrado oito vezes, mas é verdade que muitos deles são questionáveis à luz da distância: sem padronização, eles variavam entre os 40 km da primeira maratona olímpica até a distância atual. Mas já no ano seguinte o recorde baixava em quase 15 minutos, na vitória do sueco Thure Johansson, na Maratona de Estocolmo, com o tempo de 2:40:34. Tempo esse superado somente quatro anos depois, na Maratona Politécnica, nos arredores de Londres.
Em questão de duas semanas, houve duas Maratonas Politécnicas e em ambas melhores marcas mundiais: 2:38:16, do britânico Harry Green, e 2:36:06, feita pelo sueco Alexis Ahlgren, numa prova que contou com um minúsculo field de 35 atletas. A Maratona Politécnica ficou registrada na história como um dos palcos que mais recordes mundiais teve: 1909, 1913, de 1952 a 1954, e de 1963 a 1965. Oito vezes, um a mais do que Berlim, contando o deste ano.
Desde então, começaram a vir longos períodos de estagnação nas marcas. O tempo de Ahlgren só foi derrubado em 1920 pelo finlandês Hannes Kolehmainen, com 2:32:35, e que só veio a ser pulverizado em 1925 pelo americano Albert Michelsen, na maratona de Port Chester.
Na época, os pouquíssimos jornais que se dedicavam a falar de atletismo davam voz para os médicos, que já anunciavam que o limite humano iria até o tempo de 2h30. Albert Michelsen completou a prova em 2:29:01, colocando em xeque as teses fisiológicas da época. E marcando história: por mais de dez anos, muitas outras maratonas surgiram e ninguém conseguiu alcançar tal façanha do americano.


TRÊS RECORDES EM 1935. Esse hiato na quebra de melhores tempos fazia os especialistas entrarem numa grande discussão entre acreditar ou não que Michelsen era uma exceção e que os fisiologistas estavam corretos, ou seja, que o limite humano na maratona esgotara-se. O Japão então se preparou para derrubar quem acreditava na primeira tese. Montou um percurso perfeito, com a medição exata de 42.195 metros. O palco seria Tóquio, em 1935, em três maratonas diferentes, num espaço de tempo de menos de oito meses, e o recorde mundial foi quebrado três vezes.
Primeiro no dia 31 de março, quando o japonês Fusashige Suzuki, na Maratona de Tóquio, fez o tempo de 2:27:49. Quatro dias depois, no mesmo percurso, com a maratona de mesmo nome, Yasuo Ikenaka completou um minuto mais rápido, chegando em 2:26:44. Se um é bom, dois é ótimo, três já é demais. No mesmo ano, em novembro, no mesmo percurso, Korean Kitei Son quebrou a marca anterior por dois segundos.
Só que, novamente, o recorde estagnou. E até por um tempo maior - 12 anos. Foi quando o coreano Yun Bok Suh disputou a Maratona de Boston, inspirado pelo vencedor da prova anterior, o grego Stylianos Kyriakides, para também arrecadar fundos para seu país. Liderava a prova até o final da famosa Heartbreak Hill, quando foi atacado por um cachorro. Mesmo com um sério corte e sem cadarços, voltou à prova a tempo não somente de ultrapassar o finlandês Mikko Hietanen, como de bater a marca mundial na distância, com 2:25:39.
O reinado asiático nos recordes seria rompido com a hegemonia do britânico Jim Peters, que entre 1952 a 1954 bateu, na Maratona Politécnica, marca atrás de marca e rompeu a barreira das 2h20, fazendo 2:17:39 em 1954. Daí então, as marcas não duravam mais que três anos para serem quebradas.
A incipiente popularização das corridas de rua começava a formar corredores que sairiam das pistas. Também atraía jovens corredores a empatia midiática de personagens lendários, como Abebe Bikila, que, descalço pelas ruas de Roma em sua maratona olímpica, batia em um segundo o melhor mundial da época, com 2:15:16 e que, quatro anos depois, com 2:12:12, reconquistaria o posto de recordista mundial na maratona olímpica de Tóquio. Era o primeiro africano a conseguir esse feito.


ENFIM SUB 2H10. E novamente a discussão voltara nos jornais da época: "Seria o homem capaz de romper a barreira das 2h10" ou "Seria o homem capaz de correr uma maratona abaixo de 5 minutos por milha (um ritmo, no padrão métrico, de 3:06/km)" eram títulos comuns nos Estados Unidos e Grã Bretanha, entre outros. Um australiano, de apenas 25 anos, chamado Derek Clayton, deu fim às discussões e na maratona de Fukuoka, em 1967, fez 2:09:36. Dois anos depois, em Antuérpia, superou seu próprio tempo em 1:03 e tornou-se lenda viva da maratona.
Nos anos 1970, período do surgimento das grandes maratonas atuais e do boom do jogging, não houve quem chegasse muito perto do jovem australiano. Ele foi superado somente 12 anos depois, pelo seu compatriota Robert de Castella, também em Fukuoka, com um tempo 15 segundos mais rápido, 2:08:18. Digno de nota que o recorde tinha sido batido um mês antes, em Nova York, por Alberto Salazar, ao completar em 2:08:13, mas não valeu, porque a organização constatou um erro na aferição da prova, que tinha menos 150 metros, desqualificando a façanha.
Curiosamente, a despeito de Boston em 1947, nenhuma das provas hoje badaladas para recordes mundiais tinha sido palco de tal. Somente em 1984, Chicago presenciou o inglês Steve Jones alcançar a marca de 2:08:05. O sub 2h08 viria no ano seguinte, não por um africano, como podemos pensar, mas pelo português Carlos Lopes, cuja primeira prova oficial tinha sido na Corrida de São Silvestre de 1973, então com 16 anos. Chegou em segundo lugar, mas voltou para ganhar a prova paulistana em 1984, mesmo ano que estabeleceu a melhor marca da maratona, na Olimpíada de Los Angeles.
Na maratona de Roterdã de 1985, correndo sozinho a segunda metade da prova, sem ajuda de coelhos ou desafiantes, fez o espantoso tempo de 2:07:12, marca superada pelo etíope Belayneh Dinsamo, no mesmo percurso de Roterdã, em 1988.
A Etiópia anunciara que boicotaria a Olimpíadas de Seul e muito se dizia na imprensa que as razões políticas eram um engodo para a incapacidade técnica. Dinsamo e mais quatro etíopes resolveram se inscrever na maratona holandesa para provar sua capacidade. Não apenas provaram, como saíram de lá com um recorde de 2:06:50, tempo que só seria batido dez anos depois pelo brasileiro Ronaldo da Costa.


HEGEMONIA AFRICANA. Notório perceber que até 15 anos atrás, os recordes mundiais não estavam centrados nas Majors e tampouco havia uma hegemonia africana. Historicamente é um dado relevante para que não se construa um imaginário popular de que desde os primeiros tempos sempre foi assim. O domínio africano começou a ser construído apenas a partir de 1999.
Mas um ano antes, pela primeira vez em Berlim, um homem superava mais um limite imposto pela imprensa especializada por uma década: correr a 20 km/h. E ele foi o brasileiro Ronaldo da Costa, que completou em 2:06:05, pouco mais de 1 segundo por quilômetro mais rápido que o etíope em 1988. Foi a partir daí que a avalanche de recordes mundiais se iniciou.
Analisando os dados, desde 1998, os melhores tempos mundiais da maratona vem caindo quase quatro vezes mais rápido do que nas décadas anteriores. O marroquino Khalid Khannouchi em Chicago em 1999, com 2:05:42, e em Londres em 2002, quatro segundos mais rápido, levava a maratona a um outro patamar: a de uma prova na casa de 2h05. Até então quenianos não figuravam na lista de recordistas mundiais.


HAILE E TERGAT. Foi então que apareceu o queniano Paul Tergat, que em setembro de 2003 fez 2:04:55, em Berlim. Ele não apenas quebrava o recorde mundial, mas também inaugurava a lista dos quatros quenianos recordistas mundiais e a hegemonia de Berlim como palco da melhor marca nos 42 km. Um olhar mais atento dos especialistas perceberia que os anos 90 foram férteis em quebras de tempos mundiais em provas de pistas, sendo as estrela Paul Tergat e o etíope Haile Gebrselassie. Inevitavelmente, quando eles migrassem para a maratona, as barreiras seriam quebradas.
Tergat foi o primeiro; Gebrselassie demoraria ainda quatro anos para despontar. E o fez em Berlim, em 2007, com 2:04:26, para no ano seguinte romper a barreira das 2h04, com 2:03:59. Iniciava-se o admirável mundo novo nas maratonas a partir de 2008. Embora muitos considerem que Tergat, ao fazer o primeiro sub 2h05 abriu as portas para uma nova geração de grandes maratonistas, até 2007 só "Geb" tinha um sub 2h06 além de Tergat.
Há de se destacar a tática ousada e impetuosa por parte do queniano Samuel Wanjiru, em Pequim 2008, que em condições adversas (um dia quente e úmido) transformou a prova de um evento que exigia cautela para outra em que a agressão seria recompensada, sendo o primeiro queniano a ganhar uma medalha de ouro em maratona olímpica. Isso influencia muito os maratonistas atuais, que por vezes pecam por ousar demais. O meio termo seria o crescimento do uso de "coelhos", que ditam o ritmo da prova na primeira metade, deixando o ímpeto e a coragem dos maratonistas para o momento certo, a segunda parte dos 42 km.


BOSTON NÃO VALE. O exemplo de Wanjiru, os resultados de Haile e o aumento substancial nas premiações vem fazendo com que cresça substancialmente o número de jovens africanos, que pulam a etapa de fazer carreira na pista em busca de oportunidades lucrativas nas ruas.
Esses fatores influenciam diretamente a mentalidade, sobretudo de quenianos e etíopes, que passam a acreditar que podem correr cada vez mais rápido, inspirado pelos seus compatriotas e, não menos importante, as riquezas materiais e a fama que os esperam quando conseguem as vitórias e as marcas desejadas.
Esses são elementos que influenciaram a grande prova do queniano Geoffrey Mutai em Boston de 2011, com o assustador tempo de 2:03:02, embora não reconhecido pela IAAF pelos fatores altimétricos da prova. No mesmo ano o queniano Patrick Makau, embora não superasse o tempo de Mutai, bateu o tempo de Gebrselassie com 2:03:38. O queniano Wilson Kipsang, que três semanas após Makau bater o recorde, não conseguiu quebrá-lo em Frankfurt por apenas quatro segundos, dois anos depois, novamente em Berlim, pulverizava para 2:03:23.
Derrubar a marca de 2h03 seria algo que geraria nova discussão. Talvez agora, talvez daqui a dez anos, diziam. E Dennis Kimetto surpreendeu a todos que acordaram na manhã de 28 de setembro com seus 2:02:57, um segundo por milha mais rápido que Kipsang. O que poucos lembram, e que também é digno de análise, é que o segundo lugar, Emmanuel Mutai, também superou o então recorde mundial em dez segundos.
A análise dos melhores resultados nas maratonas mostra que estes estão cada vez mais a mercê de serem pulverizados a qualquer instante. Uma geração de novos atletas vem despontando, grandes nomes das pistas nos anos 2000 estão começando a migrar para as ruas, como Mo Farah e Kenenisa Bekele (apesar da decepção de quem esperava mais dele na prova de Chicago no mês passado).
A hegemonia africana parece consolidada, bem como a necessidade de um dia perfeito em um percurso favorável serem imperativos para a quebra do recorde mundial. Mas conjecturar quando virá o tão desejado sub 2h é leviano. A História não tem bola de cristal.

Uma resposta para “A evolução do recorde mundial de maratona”

  1. Carlos Lopes tinha 26 anos em 1973 e não 16, como está escrito acima. Ele nasceu em 18 de fevereiro de 1947.

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