Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

A despedida de um mito

Edição 261 - JUNHO 2015 - ANDRÉ SAVAZONI

O etíope Haile Gebrselassie anunciou sua aposentadoria como corredor de elite, após disputar a Great Manchester Run, no dia 10 de maio, na Inglaterra.

Duas medalhas de ouro olímpicas nos 10.000 m, em Atlanta-1996 e Sydney-2000. Nove títulos mundiais da IAAF, incluindo quatro vitórias consecutivas nessa distância. Um total de 15 recordes mundiais oficiais ao ar livre (contando a maratona), além de cinco indoor. Um sorriso e carisma cativantes. Em uma carreira de sucesso, por mais de duas décadas, ele foi o "cara" das pistas e das ruas nas longas distâncias. No dia 10 de maio, após participar da Great Manchester Run, na Inglaterra, o etíope Haile Gebrselassie anunciou, oficialmente, a aposentadoria como corredor de elite, pondo fim a uma era.
O mito começou a se formar há 23 anos, em 1992, quando venceu os 5.000 m e os 10.000 m no Campeonato Mundial Júnior. A partir daí, colecionou feitos. Entre os mais representativos, tornou-se o primeiro homem a superar a barreira dos 2h04 nos 42 km, em 2008, com os 2:03:59 na Maratona de Berlim. Marca que, inclusive, nas palavras de um dos maiores adversários, o queniano Paul Tergat, serviu para mostrar a todos que era possível correr ainda mais rápido!
Dentro de "casa", Haile também encontrou um adversário à altura: o também etíope Kenenisa Bekele, que foi conquistando medalhas de ouro e recordes nos 10.000 m. Mas nem isso tirou, durante todos esses anos, o sorriso (e o carisma) do campeão. "Estou me estou aposentando como corredor de elite, não das corridas. Eu nunca irei parar de correr e seguirei como embaixador do esporte", afirmou aos repórteres em Manchester, ratificando a declaração depois na conta oficial dele no Twitter. "Estou muito feliz de parar aqui. Eu sabia que seria o último dia."
Inclusive, em Manchester, depois de cruzar a linha de chegada dos 10 km na 18ª colocação, Haile voltou ao ponto de largada e fez todo o trajeto novamente, agora no meio dos amadores, em uma grande confraternização. O etíope havia anunciado a retirada das competições em novembro de 2010, mas reconsiderou a decisão. Agora, a aposentadoria também foi confirmada pelo empresário de Haile, Jos Hermens.
Durante essas mais de duas décadas da carreira esportiva, Haile soube também investir o dinheiro ganho em patrocínios e, principalmente, premiações. Tem um lado empresário, principalmente, no setor imobiliário e da indústria de café na Etiópia, responsável pela geração de muitos empregos. Além disso, é embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU) e criou a Great Run da Etiópia, com quase 40 mil participantes.
Agora, além dos vídeos do passado com suas conquistas e os números para admirar, seguirá nas corridas como um "amador", distribuindo a alegria que sempre o cativou. Quem sabe, futuramente, ao fazer uma prova na Europa, você não olha para o lado e vê, dividindo as passadas, com um largo sorriso, um "pequeno-grande" etíope, em uma emoção que somente a corrida de rua pode proporcionar.

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A história nas maratonas
Depois de brilhar nas pistas, Haile partiu para os 42 km. A estreia, em abril de 2002, na Maratona de Londres, foi cercada por grandes expectativas. E ele não decepcionou. Chegou na terceira posição, perdendo apenas para o marroquino naturalizado norte-americano Khalid Khannouchi (que bateu o recorde mundial) e para o eterno rival, o queniano Paul Tergat, segundo colocado.
Em 2003, fez 2:06:20 em Roterdã (melhor tempo do ano). Então, em 2006, quebrou o recorde mundial da meia-maratona, com 58:56. Porém, em abril, "decepcionou" com o nono lugar na Maratona de Londres. Em setembro do mesmo ano, a volta por cima: primeiro lugar em Berlim com 2:05:56 e, para encerrar uma temporada quase perfeita, ainda ganhou em Fukuoka, no Japão.
Todas as apostas em Haile se confirmaram no dia 30 de setembro de 2007, com a vitória e o recorde mundial na Maratona de Berlim, em 2:04:26. A meta, então, passou a ser quebrar as 2h04. A primeira tentativa foi em Dubai, em janeiro de 2008, em que venceu, mas com 2:04:53. No meio do ano, citando como justificativa a poluição em Pequim, abriu mão de disputar os 42 km na Olimpíada (por sinal, talvez, essa seja a única lacuna na carreira: não tem uma medalha olímpica na maratona; competiu nos 10.000 m e ficou em sexto lugar, vendo a coroação de Kenenisa Bekele).
Partiu, então, novamente para Berlim 2008, onde daí fez história: recorde mundial com o sonhado sub 2h04 - 2:03:59. Haile ainda tentou baixar esse tempo, entre 2009 e 2011, na própria Berlim e em Doha, onde chegou a vencer as provas, mas sem recorde - em 2011, inclusive, viu o queniano Patrick Makau quebrar a marca e fazer 2:03:38. Hoje, o recorde nos 42 km pertence a Dennis Kimetto, também do Quênia, com 2:02:57, algo distante e impossível até para o próprio Haile, o que não reduz a importância do etíope para o atletismo.



RECORDES PESSOAIS DE HAILE*


Distância Tempo Local Data
1.500 m 3:33.73 Stuttgart 06/06/1999
1 milha 3:52.39 Gateshead 27/06/1999
2.000 m 4:56.1 Bruxelas 22/08/1997
3.000 m 7:25.09 Bruxelas 28/08/1998
2 milhas 8:01.08 Hengelo 31/05/1997
5.000 m 12:39.36 Helsinki 13/06/1998
10.000 m 26:22.75 Hengelo 01/06/1998
10 km 27:02 Doha 11/12/2002
15 km 41:38 Nijmegen 11/11/2001
20.000 m 56:26.0 Ostrava 27/06/2007
20 km 55:48 Phoenix 15/01/2006
1 hora 21.285m Ostrava 27/06/2007
21,1 km 58:55 Phoenix 15/01/2006
25 km 1:11:37 Alphen Rijn 12/03/2006
30 km 1:27:49 Berlim 20/09/2009
42,2 km 2:03:59 Berlim 28/09/2008
*Fonte: IAAF

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