Revista Contra-Relógio
// Como funciona //

A corrida está no sangue

Edição 226 - JULHO 2012 - FERNANDO BELTRAMI

Muito se fala do coração, dos pulmões e dos músculos durante a corrida. Mas o sangue, responsável por ligar estes e todos os outros sistemas do organismo, muitas vezes é deixado de lado. Peça fundamental no bom funcionamento do corpo, o sangue também passa por diversas adaptações com o treinamento.

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Entender o que acontece com o sangue em função do treinamento esportivo é parte importante da compreensão sobre o processo de adaptação de diversos outros sistemas. Tão importante, por exemplo, que um dos métodos de doping mais eficazes hoje em dia é justamente o doping sanguíneo. Enquanto o foco do treinamento é aumentar a capacidade e resistência dos músculos, dos pulmões e do coração, é o sangue quem se encarrega de transportar uma demanda cada vez maior de oxigênio, nutrientes e hormônios sinalizantes da necessidade de adaptação do organismo de um lado para outro. E o sangue ainda é o responsável por transportar os restos tóxicos do metabolismo, e até mesmo eliminar o calor produzido durante o exercício.


A nossa capacidade de exercício é dependente da produção de energia, por razões óbvias. Para gerar energia, os músculos precisam consumir oxigênio. Atualmente, é praticamente aceito que o fator limitante no consumo de oxigênio é a capacidade de levar oxigênio até a musculatura, e não a da musculatura em si de utilizá-lo. Assim, por definição, o objetivo primário de quem deseja melhorar sua performance é elevar o transporte de oxigênio, justamente a função do sangue. Isto pode ser feito de duas formas: aumentando a quantidade de sangue circulante ou a capacidade de transporte de oxigênio do sangue em si. Com o treinamento, ambas ocorrem. O coração se fortifica e passa a bombear mais sangue a cada batimento, e próprio sangue auxilia no processo, aumentando em volume para facilitar seu bombeamento (imagine-se tentando esvaziar uma bexiga com água; a água sai com muito mais força no início, quando a bexiga está dilatada com um maior volume de água dentro).


Para entender como o treinamento influencia no volume e na composição do sangue, podemos dividi-lo em componentes: o volume de eritrócitos (as células vermelhas, que carregam oxigênio), o volume de plasma (a parte líquida do sangue) e o volume total de sangue (essencialmente a soma dos outros dois). Todos os três aumentam com o treinamento físico, ou seja, um corredor possui mais sangue e mais células vermelhas em medida absoluta, porém tende a apresentar a mesma concentração de células vermelhas, o chamado hematócrito, que uma pessoa destreinada.


No entando, o tempo necessário para que a adaptação dos volumes de plasma e de eritrócitos ocorra apresenta grande diferença. Enquanto o volume de plasma pode aumentar rapidamente em função de horas, o de eritrócitos se dá ao longo de semanas ou mesmo meses. Essa diferença se explica pelo plasma ser basicamente água, e pode se refazer de uma perda de volume (através do suor, por exemplo), pela simples reposição de água via hidratação oral. Já as células vermelhas precisam ser produzidas pela medula óssea, e em um caso agudo de perda excessiva de células vermelhas (sangramento, doação de sangue), mesmo com a sinalização da necessidade de novas células, o processo é naturalmente mais complexo e demorado.


Por este motivo, o processo de recuperação de volume de sangue perdido é caracterizado pela manutenção aguda do hematócrito (pois plasma e células vermelhas são perdidas na proporção normal do sangue), seguida por uma diluição da quantidade de células vermelhas, já que o volume de plasma se recupera mais rapidamente. O mesmo ocorre em termos de resposta ao treinamento físico, o volume de plasma parece aumentar já a partir das primeiras sessões de treino, ao passo que o de eritrócitos leva cerca de três semanas para apresentar alterações significativas.


Passado este período de adaptação, tanto o plasma quanto as células vermelhas aumentam praticamente na mesma proporção, de forma que muitas vezes não há alterações no hematócrito. Assim, corredores e atletas em geral podem apresentar períodos de baixa concentração de células vermelhas, que quando detectados devem ser acompanhados para que se possa diferenciar uma situação normal de um caso de anemia, que é uma contagem baixa de células vermelhas saudáveis no sangue.



OS EFEITOS DA DOAÇÃO. Por ser uma questão rotineira para alguns corredores, é importante estar ciente do curso destas alterações na concentração do sangue, pois elas ocorrem também quando se doa sangue. Durante uma doação, uma pessoa normal e saudável normalmente doa no máximo 450ml de sangue, ou cerca de 10% de seu volume total. Pessoas menores, especialmente mulheres, costumam doar um pouco menos. Esta quantidade não traz nenhum tipo de desconforto em repouso, mas pode afetar a capacidade de exercício por algum tempo.


Já em 1954 se demonstrou uma diminuição significativa na capacidade de corrida e consumo de oxigênio imediatamente após a doação de sangue, em pessoas destreinadas. Mais recentemente, um estudo verificou que ciclistas treinados perdem cerca de 7% de seu consumo máximo de oxigênio, e cerca de 8% de sua capacidade de exercício (determinada pela carga máxima tolerada durante um teste de esforço incremental), logo depois de uma doação, e este decréscimo persiste por pelo menos uma semana. Em exercícios submáximos, a capacidade de transporte de oxigênio não é afetada na mesma proporção.


Estes resultados sugerem que a doação de sangue deve ser agendada para não coincidir com períodos críticos do treinamento, de forma a permitir que os treinos sejam levemente reduzidos em intensidade por uma ou até duas semanas sem maiores problemas. Obviamente que neste caso estamos falando de situações onde a necessidade de doação não é emergencial.


Mesmo sem a perturbação sistêmica causada por uma doação sanguínea, o volume de sangue no organismo é longe de ser estável e varia inclusive de acordo com a época do ano, aumentando nos meses mais quentes e diminuindo nos períodos mais frios. São variações pequenas, de cerca de 3-5%, mas que mostram como o sistema é maleável para se ajustar às condições enfrentadas pelo organismo.



MUDANÇAS DURANTE A CORRIDA. Além da variação sazonal, o volume de sangue do organismo varia dentro uma única sessão de treino. Inicialmente, existe uma mudança imediata com o início da atividade física, pois a contração muscular comprime os vasos por onde o sangue circula, fazendo com que parte do plasma passe para dentro dos músculos. Ainda mais significativo, ao longo de uma sessão de corrida, em especial no calor, o sangue perde volume constantemente pois cerca de 10% da água em nosso suor é de origem sanguínea.


Com a diminuição da quantidade de sangue, o corpo sofre de duas maneiras: primeiro, sua capacidade de perder calor é afetada, pois é o sangue que absorve o calor das partes mais "profundas" do corpo e o leva até próximo da pele para ser perdido para o ambiente - razão pela qual as pessoas ficam vermelhas quando se exercitam. Com menor capacidade de perda de calor, o organismo aquece mais rapidamente, podendo levar à maior sensação de esforço e fadiga prematura.


O segundo fator é que com menos volume de sangue, o coração precisa bater mais vezes para entregar a mesma quantidade de oxigênio e nutrientes para os diferentes órgãos. Assim, a prática de exercícios no calor é caracterizada pela ocorrência de um contínuo aumento do número de batimentos cardíacos com o decorrer do tempo, caso a intensidade seja mantida. Este aumento pode chegar em até 15-25 batimentos por minutos a mais do que durante o começo da atividade.


Por estas razões, o volume de plasma é uma das principais adaptações em decorrência da aclimatação ao calor. Corredores expostos ao treinamento no calor apresentam expansão do volume de plasma da ordem de até 30% em cinco dias de treino sob estresse térmico; por essa razão, sugere-se um período mínimo razoável para adaptar-se às condições de uma prova corrida em climas quentes.



DOPING, POR EPO E POR TRANSFUSÃO


Atletas e cientistas estão atentos para a importância do sangue para a performance, especialmente no que diz respeito ao transporte de oxigênio. Não por acaso, o doping por eritropoitina ou por re-infusão de sangue se tornou tão popular. O que ninguém previu - pelo menos acredita-se que não - é que o doping sanguíneo pudesse ser tão perigoso. Hoje considera-se que a morte de uma série de atletas no fim dos anos 1980 e início dos anos 90, especialmente entre ciclistas, tenha uma forte relação com o doping sanguíneo, que teve seu auge no período. Ele é tão eficaz em termos de performance, que melhoras da ordem de 6% já foram relatadas em cerca de apenas 3 horas após a re-infusão de sangue em atletas, efeito que durou por pelo menos mais duas semanas.


Ambas as formas de doping sanguíneo baseiam-se no mesmo princípio, porém percorrem via diferentes. A eritropoitina, conhecida como EPO, é a molécula responsável por ativar o processo de fabricação de glóbulos vermelhos do sangue. Assim, os atletas fazendo uso (ilegal) de EPO conseguem aumentar o volume de eritrócitos, portanto também sua capacidade de transportar oxigênio até os músculos. No doping sanguíneo, o mesmo resultado é almejado, porém de certa forma o método é mais natural. O atleta inicialmente tira o equivalente a uma doação de sangue do próprio corpo. Como já vimos, logo após a "doação", seu volume de plasma irá se expandir até atingir os níveis pré doação, e ao longo do mês seguinte o volume de eritrócitos também irá se recuperar.


O sangue é então centrifugado, para retirar o plasma e concentrar as células vermelhas, e estocado congelado durante cerca de um mês. Passado o período da recuperação normal do sangue do atleta, os eritrócitos concentrados são recolocados em sua corrente sanguínea, como se desta vez ele fosse o receptor de uma doação. Este processo é muito mais difícil de ser detectado em antidoping, pois utiliza apenas o sangue do próprio atleta, e hoje em dia algumas federações esportivas utilizam valores limítrofes do que é um hematócrito (contagem de células vermelhas) normal para detectar uma situação de doping sanguíneo.


O perigo deste tipo de doping, presente independentemente da técnica utilizada, é que a concentração de células vermelhas vai além do normal, e via de regra o organismo não está preparado para isso. Num exemplo forçado, imagine água correndo por um sistema de tubos e que dentro desta água existe uma quantidade de farinha, que é pequena o bastante para que a água continue líquida e circulante. Agora pense no que aconteceria se alguém resolvesse continuar adicionando mais farinha ao sistema: a água iria se tornar mais pastosa e a circulação se tornaria mais difícil. Um processo semelhante ocorre com o sangue hiper-concentrado. Não apenas aumenta o estresse cardíaco para transportar um fluido mais viscoso e espesso, como o próprio sangue corre o risco de cogular em função da circulação mais lenta, e pequenos coágulos sanguíneos podem entupir artérias vitais. Se o fato de doping ser trapaça não bastar para parar um atleta, a ameaça de colocar sua vida em risco certamente deveria.

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