Revista Contra-Relógio
// Brasileiros lá fora //

166 km de Mont Blanc: para poucos, mesmo!

Edição 193 - OUTUBRO 2009 - FERNANDA PARADIZO

Acompanhe as sofridas 33 horas da treinadora Cristina de Carvalho por muitas e fortes subidas e descidas pelos Alpes


Não há nenhuma corrida no mundo que se assemelhe ao Ultra Trail du Mont Blanc, ou UTMC. São 166 km subindo e descendo montanha. A 7ª edição dessa competição aconteceu no final de agosto e teve a presença de cinco brasileiros, que resolveram desafiar os limites nos Alpes. O evento, que oferece também duas outras provas mais curtas aos participantes (98 km e 105 km), larga e chega em Chamonix, na França. São cerca de 5 mil inscritos nas três distâncias, sendo 2.300 na prova principal. A dificuldade da competição é tanta que apenas 40% dos que largam conseguem completar. E para participar da prova principal é preciso fazer algumas outras classificatórias para obter a pontuação. Os mais rápidos levam 20 e poucas horas para finalizar e o tempo-limite de término é fixado em 46 horas.

Publicidade


Entre os brasileiros que estiveram na edição 2009 do UTMC, destaque para Cristina de Carvalho, 40 anos, que enfrentou pela primeira vez as montanhas de Mont Blanc e foi campeã na categoria, além de garantir a 7ª colocação no geral entre as mulheres.


Pontuação para desafiar os Alpes, Cris tinha de sobra. A atleta acumulava oito pontos no total, sendo quatro computados no Ecomotion 2007 e 2008, dois no Cruce de Los Andes 2008 e 2009, na Argentina, e mais dois no North Face Endurance Challenge, em Nova York, prova de 80 km que acabou definindo seu destino rumo aos Alpes. "Fiz em março deste ano essa prova em Nova York e fui a 2ª colocada. Depois da prova, todo mundo dizia que eu deveria fazer", conta a atleta, que não quis deixar a oportunidade passar em branco, uma vez que vários outros brasileiros, muitos dos quais seus alunos (ela é treinadora), também tinham pontuação, inclusive seu marido, o arquiteto José Caputo. "Era uma oportunidade única de irmos todos juntos."


Apesar da decisão de encarar de frente a montanha, Cris sabia da dificuldade da prova, embora não conseguisse mensurar o tamanho de toda empreitada. A expectativa de término dos 166 km foi baseada na participação de uma outra brasileira, também corredora de aventura, que havia feito o UTMB em 27 horas. "Ela tinha uma corrida muito similar à minha e, apesar de ter mais know-how, era uma referência de ritmo para mim, que não conhecia absolutamente nada da prova. Se eu fosse muito bem, poderia terminar em 27 horas. Mas achava que o tempo de 30 horas era razoável e 35 mais plausível."


TREINOS, MUITOS TREINOS. Os treinos para encarar o desafio se basearam mais na dificuldade do percurso do que propriamente no volume. "Tentávamos treinar juntos, mas nem sempre era possível. Todos são superatarefados, mas procuramos treinar numa mesma sintonia. Corríamos quatro vezes na semana, às vezes em dois períodos. Nosso pico de treino deu cerca de 35 km de montanha. Os outros três treinos nunca eram menos que 15 km. Subimos a Pedra Grande umas seis vezes do lado inverso, que tem a maior distância. Fizemos bastante treino de tiro, com intervalo curto, e muito agachamento", conta Cris, que lembra ainda que houve alguns momentos da preparação em que conseguiu treinar mais duro. "Num final de semana, fiz 30 km na Pedra Grande, na quarta 15 tiros de 1000 metros a 4 minutos, com 30 segundos de intervalo, e à noite fiz outra Pedra Grande. No final de semana seguinte, mais uma Pedra Grande. Terminei a semana quase ajoelhada. Mesmo assim, era bem menos volume que as pessoas sugeriam no site oficial para quem fosse fazer a prova."


No dia 28 de agosto, às 18h30, 2300 atletas largaram em Chamonix para os 166 km. Para a brasileira as dificuldades foram aparecendo logo no início. "Como largamos no final da tarde, tínhamos cerca de duas horas de luz. A partir 20h30 começou a escurecer e foi preciso usar lanterna. Havia ainda toda uma noite pela frente", comenta Cris, que ficou assustada com os primeiros 60 km de prova e teve que encontrar muito cedo uma estratégia própria de sobrevivência para que conseguisse superar as dez montanhas ao longo do circuito. "No início você sente muita vertigem devido à altitude. E foi começar a subir e descer montanha e meu quadríceps já estava destruído."


PARADA DE 5 A 10 MINUTOS PARA DORMIR. Na subida, a estratégia encontrada para sobreviver aos altos cumes que estavam por vir foi "parar, sentar, contar 20 segundos e voltar a subir novamente. Eu fazia isso sempre que ficava exausta. A sensação era que meu quadríceps começava a fritar. Eu dava esse intervalinho e a perna parecia que oxigenava. Era instantâneo", conta Cris, que também teve que lançar mão de breves paradas ao longo do percurso para dormir e ter condições de retomar as energias e continuar seu caminho. "É algo que se faz em prova de aventura. Quando você está exausto, dorme. Eu não dormia mais que 5 ou 10 minutos, mas dormia."


Sentindo-se como uma alienígena entre os participantes de seu pelotão, que faziam uma prova mais regular, sem tantas paradas e variação de ritmo, houve um momento em que a brasileira precisou passar a se esconder na trilha de tanto que era a preocupação dos corredores que estavam à sua volta. "As pessoas perguntavam a cada segundo se eu estava bem e isso atrapalhava meu descanso. Sei que queriam me ajudar, mas eu precisava fechar os olhos e descansar. Eu queria parar perto da trilha para estar junto com o Caputo e meus alunos, mas houve um momento em que percebi que precisava me esconder, mesmo correndo o risco de me perder deles. Eu estava passando bem, mas era a única maneira que eu, com meu know-how de provas de aventura, conseguiria chegar ao fim. Passou a ser minha técnica de sobrevivência."


Outra novidade da prova para a atleta era o uso do trekking pull, um bastão que os montanhistas utilizam para auxiliar nas subidas. "Coloquei na mochila e passei a usar só depois de três montanhas. Observei como as pessoas usavam. É preciso ter um manejo. Comecei toda desajeitada e depois peguei o jeito. E foi bom porque ajudou bastante."


Se as subidas eram sempre obstáculos a transpor com dificuldade, as descidas não eram diferentes. Afinal, a musculatura doía tanto que foi necessário implementar uma estratégia bem particular também para descer. "Eu corria 10 minutos em cima da dor e andava uns 20 passos para recuperar", conta Cris, que usava toda sua experiência em corrida de aventura para despencar morro abaixo. Nas partes planas, onde era possível correr mais forte, ela também usava de sua experiência como corredora. "Nem todo plano eu tinha musculatura para correr, às vezes eu até caminhava. Mas, quando conseguia correr, corria sempre mais forte que meu pelotão", lembra a atleta, que novamente acabou causando estranhesa das outras pessoas. "Ritmo constante cansa menos? Para mim, não era assim. Quanto mais eu variasse, melhor."


SOPA, SALAME, QUEIJO... Quando chegava aos postos de controle (a cada 8 ou 10 km), Cristina também se diferenciava de seu pelotão. "Todos passavam direto. Eu parava pelo menos 10 minutos, que era o tempo que precisava para me restabelecer. Tomava água, um prato de sopa, enchia meu Camel Back e ia embora."


Além do reforço da sopa em cada posto de controle, até a metade da prova o gel de carboidrato era o principal combustível de Cris. No entanto, depois da metade, as coisas mudaram e a atleta teve que fazer uma adaptação. "Não aguentava mais só gel. Daí passei a coisas tipo salame ou queijo, que eram oferecidos na prova. De vez em quando eu ainda conseguia tomar um gel."


Foi nos postos de controle que Cris conseguiu informações sobre os outros participantes, por intermédio da vídeo-repórter Renata Falzoni, da ESPN. "Ela me posicionava a que distâncias eles estavam. Como são todos meus alunos, pedi para que avisasse que eles usassem a experiência nas provas de aventura e dormissem, não de forma deliberada como fazemos, mas cerca de 5 ou 10 minutos. Afinal, isso estava me devolvendo a vitalidade na prova", conta Cris, que soube por Falzoni a respeito da desistência do seu marido, que competia na mesma modalidade.


Cada posto de controle atingido era como se fosse uma vitória para a atleta, que chegava sempre sorrindo. "Ninguém chegava comemorando. Só eu", diz Cris, que lembra ainda que nesses momentos sempre existia alguém com uma frase na ponta da língua: "A prova começa nos 130 km. Depois disso, você ainda tem 10 horas para terminar". Mesmo ouvindo dos participantes ao longo do percurso que ainda havia muita coisa pela frente, quando Cris atingiu a marca dos 130 km, não acreditou que pudesse levar mais 10 horas para finalizar os outros 36 km que faltavam, uma vez que havia feito os 130 km para 24 horas. No entanto, as dificuldades foram se mostrando ao longo do caminho. "Não era mais uma montanha de trekking, com trilhas de terra. Era uma montanha de escalada. Você tem que subir e descer em cima de pedra. Era a parte técnica da prova."


TAMBÉM MUITO FRIO... Apesar do grau bem maior de dificuldade no percurso, tudo o que oferecesse mudança para a atleta era bem-vindo. No entanto, os problemas e as dificuldades para transpor montanhas jamais deixaram de existir. Ainda que fosse verão na Europa, o frio característico da montanha começou a apertar quando os atletas entraram na segunda noite. "Eu havia deixado, com a organização, uma reserva de roupa de frio e um tênis no meio do percurso. Se eu sentisse frio da primeira noite para a segunda eu pegaria mais roupa. Achei que dava para ir com o que eu estava, que era um corta-vento, um ice-break (uma casaco térmico, leve e quente) e luvas, além de uma meia de compressão e uma calça cortada abaixo do joelho", lembra a atleta, que na metade da prova optou por trocar apenas o tênis por um par menos leve e que não a deixasse sentir tanto as pedras do percurso. "A montanha estava muito mais fria na segunda noite e eu ainda perdi minha luva. Consegui outra com um corredor do meu pelotão", conta Cris, que novamente usou a experiência das provas de aventura para conseguir suportar o frio. "Eu tinha um cobertor térmico, que em contato com a pele não deixa você ter hipotermia. Retalhei todo ele e enrolei no meu corpo e na cabeça."


Apesar de todas as dificuldades que encontrava ao longo da prova, Cristina estava conseguindo se virar muito bem diante do desconhecido. No entanto, seu pior pesadelo estava ainda por vir. Era noite quando a atleta chegou ao último posto de controle da prova, em cima de montanha, faltando apenas 5 km de descida para o final. "Eu tinha aquela estratégia de dormir sempre que estava exausta. A última perna da competição tinha sido difícil, com muita pedra. Cheguei a parar para tentar dormir meus 10 minutos. Quando fechei os olhos, achei que deveria terminar logo aquilo. Calculei que, mesmo se eu andasse esse trecho final, em 1h30 eu já poderia estar ‘em casa' dormindo de verdade."


Perdida na montanha. Cris não parou seus 10 minutos habituais e foi adiante, valendo-se também da informação de que o percurso dali em diante era praticamente uma estrada até a chegada em Chamonix. Mas o cansaço fez com que a atleta perdesse o foco e a falta de atenção fez com que desembocasse numa trilha errada, que a levou para outro caminho. "Eu estava muito cansada. Tinha marcação a cada 100 metros e eu me perdi. Foi um momento que eu desfoquei. Comecei a me lamentar, achei que a prova estava muito dura. Em vez de comemorar que estava chegando, parei de prestar atenção."


Mesmo não vendo a marcação oficial da prova a cada 100 metros, Cristina entrou na trilha errada. "No começo, não pensei que estava errada, mas sim que não tinha mais marcação porque a chegada estava logo ali, nas luzes da cidade que via'". Quando percebeu o erro, apagou sua lanterna, olhou para cima e não conseguiu avistar nenhum ponto de luz na montanha. Não havia outra coisa a fazer a não ser tentar encontrar na escuridão o caminho que a colocasse de volta na trilha certa. "Eu não tinha nenhuma referência. Havia muitas trilhas que desembocavam na estrada. Peguei dois caminhos errados. Na hora que desci, lembrei que havia umas placas. Quando vi de novo a trilha, lembrei delas, mas percebi que não havia marcação. Aí eu quase chorei porque para consertar o erro, teria que subir até a boca da trilha. Minha prova passou a ter uma montanha a mais, mas logo fiquei feliz por ter encontrado o caminho de volta."


Foi no momento em que encontrou a trilha certa, que Cris percebeu que poderia ter perdido posições. "Quando voltei à trilha, vi duas pessoas que pareciam ser mulheres à minha frente, mas nem liguei. Eu também nem sabia direito a posição que estava. As informações eram muito desencontradas. Alguns me diziam que estava em 4º, outros em 6º. Ouvi até que estava em 20º. Não estava preocupada. Queria terminar. Passei várias mulheres no percurso e fui ultrapassada várias vezes também. Você nem liga. Ninguém faz nada olhando para o lado, porque a coisa é muito maior que tudo isso", explica a atleta, que cruzou a linha de chegada em Chamonix com 33:23:13, na 7ª colocação no geral entre as mulheres e a 1ª na sua categoria. "Cheguei exausta e de mau humor, pelo meu erro. Mas ao mesmo tempo com uma sensação de Forrest Gump."


NUNCA MAIS! SERÁ? Na avaliação final de Cris, o fato de serem duas noites para um dia é muito ruim. "Numa prova dessas, a coisa mais legal e estimulante é a montanha. Ela é magnífica. Claro que o céu é bonito e as estrelas são lindas, mas isso por uma noite", analisa a atleta. "Quando terminei pensei: ‘nunca mais quero voltar aqui'. Mas, como atleta, tenho até vontade de voltar, porque agora ganhei experiência. São aquelas vontades egocêntricas que temos de tentar corrigir coisas que pensamos que seriamos capazes. Mas acho que isso é uma ilusão. Faria de novo só se tivesse um motivo a mais, como para acompanhar meu marido, que parou no km 60 porque teve vertigem."


Entre um treino e outro, Cristina de Carvalho, que é formada em Educação Física, foi atleta profissional até 2001 e comanda há onze anos o Projeto Mulher e há sete o Núcleo Aventura, divide seu tempo e atenção com o filho de 4 anos, o Luigi.


BRASILEIRA É CAMPEÃ NOS 106 KM
A mineira Fernanda Maciel, de 29 anos, faturou a 1ª colocação no geral feminino na modalidade TDS, prova de 106 km que acontece junto com a competição principal. A brasileira levou 17h17 para finalizar o trajeto, terminando na 26ª colocação geral entre 800 participantes. Metade desses não completou a prova. Morando na Catalunha, Espanha, há um ano, a atleta de corrida de aventura e também advogada nos conta aqui, um pouco sobre sua vitória nessa difícil prova pelos Alpes da França, Itália e Suíça.


Como surgiu a idéia de fazer a prova?
As provas de ultramaratonas ao redor do Mont Blanc são clássicas dos corredores de montanha. Como hoje moro na Europa, ficou mais fácil participar. Além do mais, é uma prova da North Face, minha atual patrocinadora. Portanto, mais um motivo para estar presente mostrando minha "cara".


Qual sua experiência nesse tipo de prova?
Comecei a participar de corrida de montanha quando morava na Nova Zelândia, em 2005 e 2006. Voltei a competir no ano passado e, em dezembro de 2008, fui convidada para as 50 milhas da North Face Endurance Challenge, na Califórnia. Com minha boa colocação nessa prova de altíssimo nível, me empolguei novamente com o esporte e em janeiro deste ano estava em mais uma ultramaratona, dessa vez na França, a Trail Blanc, com um percurso 100% sobre a neve.


Como foi seu treinamento para a prova?
Torci meu tornozelo em janeiro na Trail Blanc, na França. Depois de um mês descobri que tinha um problema num ligamento e um edema no osso do meu pé direito. Fiquei, portanto, quatro meses parada, dois meses caminhando com ajuda de muletas. Em junho fui liberada das muletas e comecei com meus treinos de "bisavó", assim eu os chamava, 20 minutos ou 30 de trote. E com muita paciência focando na recuperação. Três semanas antes da prova no Mont Blanc, resolvi passar uns dias na França e Itália para treinar nos Alpes e poder estar mais bem preparada para a prova. Escalei a própria montanha Mont Blanc, pico mais alto dos Alpes, uma semana antes da competição, pois sentia a necessidade de estar aclimatada. Esse foi meu treino.


Morando na Europa, você consegue simular treinos que mais se assemelhem a essa competição?
Claro que morando nos Pirineus fica mais fácil fazer treinos técnicos, mas, quando morava em São Paulo, isso também era possível. Passava finais de semana em Itamambuca, Ilha Bela ou Belo Horizonte, sempre atrás das montanhas, minha paixão.


E como foi sua prova? Liderou o tempo todo ou isso mudou durante o percurso?
Larguei com muita consciência. Por ser uma prova de alto nível técnico, com trilhas estreitas infinitas sobre pedras e abismos, o que de mais importante passava pela minha cabeça durante os 106 km era "meu pé, meu pé, meu pé!". Precisava me concentrar para não torcê-lo outra vez. Se sentisse alguma dor, abandonaria a prova e preservaria minha recuperação. Larguei em Chamonix na segunda colocação geral das mulheres e com um ritmo bem tranquilo para suportar até a chegada. Ultrapassei a italiana primeira colocada, na descida de 1.500 m de desnível do Coll de Forclaz, já com umas 7 horas de prova. Depois disso foi desfrutar por mais 10 horas da emoção de liderar uma prova tão famosa na Europa, todos gritando meu nome e minha nacionalidade: "Brasileira!".

Deixe o seu comentário


Publicidade

















11 3031.8664
Rua Hermes Fontes, 67
São Paulo - SP





© 1993 - 2014
Todos os direitos reservados