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Revista Contra-Relógio

EDIÇÃO 207 - DEZEMBRO 2010

Maratona de Nova York: emoção à flor da pele

POR FERNANDA PARADIZO (fernanda@revistacontrarelogio.com.br)

Nova York é uma maratona que se supera a cada ano. E a edição de 2010 não poderia ter sido diferente. A festa reservada aos corredores, que lotam a cidade em busca de sonhos diferenciados, é um momento único e só quem já viveu essa mágica experiência consegue chegar perto de explicar aquilo que para muitos parece inexplicável. Isso porque a mais famosa maratona do mundo sempre surpreenderá, a quem quer que seja.

Quando o recordista mundial de maratona, Haile Gebrselassie, anunciou sua presença na 41ª edição da prova, uma frase pronunciada pelo etíope, estampada na home do site oficial, marcava muito bem o sentimento do que representa estar ali entre os 45 mil maratonistas que fariam parte desse grande evento. O que disse Haile? "Minha carreira simplesmente não seria completa sem essa prova." Seja atleta de elite, recordista mundial ou não, ou simplesmente um amador, essa sensação de poder correr onde o mundo inteiro gostaria de estar em todo 1º domingo de novembro marcou a campanha do evento de 2010 com o slogan "I'm in! We're in!" (Estou dentro. Estamos dentro!).

E os números de Nova York só reafirmam a grandeza dessa prova, que não pára mais de crescer e bate recorde anualmente. Os organizadores são orgulhosos ao dizer que a maior maratona do mundo recebeu 164 mil solicitações de inscrições em 2010 e, desse total, 60 mil foram aceitas. Mesmo com essa quantidade tão grande de inscritos, a previsão de concluintes era de 45 mil, já considerando que boa parte dos inscritos poderiam, mesmos às vésperas da prova, se valer do direito de cancelar a inscrição e "jogá-la" para o próximo ano, como prevêem as regras do evento.

PRESENÇA DO MINEIRO CHILENO. Diante de números tão grandiosos, só poderíamos esperar mais uma grande festa, que os norte-americanos sabem melhor do que ninguém fazer. E a história do mineiro chileno corredor, Edison Peña, que ficou 69 dias preso na escuridão de uma mina, caiu como uma luva para o New York Road Runners, clube de corrida local e organizador da maratona, que tratou muito rapidamente de convidá-lo para fazer parte da festa. O convite foi prontamente aceito. Se ele iria correr ou não, isso não interessava. Só a presença dele ali já era suficiente para despertar a atenção do mundo. E mais holofotes foram direcionados para a soberana Maratona de Nova York.

Com uma programação repleta de atrações, destaque para a estréia da NYRR 5, uma corrida de 5 milhas (8 km) realizada na sexta-feira, no Central Park, com inscrições abertas a quem quisesse participar. No sábado, a já tradicional Corrida Internacional da Amizade, que tem sua largada na frente do prédio das Nações Unidas, seguiu o mesmo protocolo de sempre, com a cerimônia de abertura oficial e a presença de uma figura para lá de ilustre. Campeão da Maratona de Nova York de 2005 e ex-recordista mundial de maratona, o queniano Paul Tergat foi o homenageado do ano. Mais uma grande sacada dos organizadores, que proporcionaram no dia anterior um encontro histórico entre Haile e Tergat, duas feras do atletismo mundial e que protagonizaram grandes duelos nas pistas e na quebra de recordes nas mais variadas distâncias, de 5.000 metros à maratona.

VITÓRIA DE UM ESTREANTE. Com Gebrselassie na lista dos inscritos, poucos holofotes sobraram aos demais atletas, que pareciam estar fadados apenas a coadjuvantes. Mas não foi bem isso o que aconteceu. E quem roubou a cena foi um estreante na distância. O também etíope Gebre Gebremariam assumiu a liderança da prova faltando 4 km para o final e cruzou a linha de chegada no Central Park em 1º lugar, com o tempo de 2:08:14, seguido dos quenianos Emmanuel Mutai, em 2:09:18, e Moses Kipkosge (2:10:39). O brasileiro Marilson Gomes dos Santos, bicampeão da competição (2006 e 2008) teve problemas com o frio a partir do km 30 e acabou fechando a prova na 7ª colocação, com 2:11:51. A surpresa do dia foi a desistência de Haile, que pela manhã já tinha anunciado no seu twitter que estava com dores no joelho. O etíope abandonou a prova no km 25.

Na disputa entre as mulheres, definida somente após o km 36, a queniana Edna Kiplagat, campeã da Maratona de Los Angeles 2010, levou a melhor e venceu com o tempo de 2:28:20, seguida da norte-americana Shalane Flanagan, estreante em maratonas, que protagonizou um final emocionante ao ultrapassar a etíope Mary Keitany a poucos metros da linha de chegada, garantindo a 2ª colocação em casa, fato que não acontecia na competição desde 1990, quando Kim Jones foi também vice.

4 ANOS SEGUIDOS. Muito se fala de Nova York, mas pouco se consegue transmitir em palavras o que essa maratona de fato significa.Terminada a disputa dos profissionais por uma melhor colocação no pódio, são os amadores que entram em cena. Impulsionados por aplausos e gritos incessantes da platéia, que se amontoa nas grades para ver os corredores passarem, anônimos viram as estrelas do espetáculo, que se inicia em Staten Island, passa pelos bairros do Brooklin e do Queens e chega a Manhattan pelo retão interminável da Primeira Avenida para dar uma passadinha rápida no Bronx e voltar novamente a Manhattan, finalizando os 42,2 km do percurso no Central Park. Uma emoção sem tamanho. E é por isso mesmo que muitas pessoas que vivem pela primeira vez a experiência de Nova York fazem questão de voltar no ano seguinte, e quantas vezes mais forem necessárias.

É o caso do médico paulista Luiz Carlos Shiguihara, de 46 anos, que corre há oito anos e completou em 2010 sua quarta maratona de Nova York seguida. "Amigos vieram aqui e falaram que era empolgante e bonito. Fiz em 2007, adorei e acabei vindo seguidamente. Ano que vem estarei aqui de novo", diz o corredor, que destaca como o grande diferencial da prova o envolvimento do público, que incentiva os corredores sem parar. "Somos turistas, mas também somos considerados pelos nova-iorquinos os atores principais do evento. Todos têm muita consideração pelos corredores e a tradição da medalha no peito do dia seguinte é muito bacana."

Para o médico, uma das partes mais contagiantes da prova ė quando o corredor vai se aproximando do Central Park e tomando contato cada vez maior com o público. Mas, se por si só a famosa corrida já atrai os turistas, a cultura tambėm ė fator primordial e um pretexto dos mais interessantes para uma visita à cidade nesse meio de outono. "Manhattan tem 153 museus. Preciso estar muitas vezes aqui para poder visitar todos eles", brinca Shiguihara, que tem como melhor tempo na Big Apple 3h49, resultado conseguido na sua estréia.

SUB 3 HORAS ADIADA. Outro que fez questão de marcar presença novamente na prova após a estréia em 2009 foi o cardiologista catarinense Rafael Kuhnen, de 39 anos, que corre maratona desde 2007 e completou em Nova York sua 11ª. Além da atração pela grandeza do evento, a volta à Big Apple um ano depois tinha um motivo especial, que era não só tentar baixar seu tempo em relação ano anterior (3:01:14), como também ir em busca de uma performance que o médico deixou escapar na sua estréia. "Busco correr uma maratona sub 3 horas e terá que ser aqui em Nova York", comenta Rafael, que finalizou os 42 km em 3:02:02 e novamente teve que jogar seu sonho para mais adiante.

"Passei a meia maratona em 1h25 e pensei: ‘vai ser hoje'." Nos 30 km estava tudo sob controle, mas no 38 seu sonho começou a ruir. A coxa esquerda começou a "pegar"e o ritmo foi caindo aos poucos no Central Park, onde o circuito é repleto de sobe-e-desce. Apesar do objetivo final não ter sido atingido, Rafael não abre mão do desafio traçado, mesmo sabendo que teria muito mais facilidade para correr no tempo desejado numa prova mais plana, como Berlim. "Eu sei que posso correr sub 3h em qualquer lugar, mas quero que seja aqui", diz o médico, que considera uma das partes mais emocionantes da prova a Queenboro Bridge, ponte que liga o Queens a Manhattan, e o início da Primeira Avenida, onde os gritos da platéia vão aumentando e são de arrepiar. "No ano passado, eu não conhecia a prova, mas este ano já corri esperando por este momento. O barulho é ensurdecedor e é muito bom."

ÓTIMA, APESAR DO PERCURSO. Apesar de ser uma maratona considerada um pouco mais difícil que a média das maratonas badaladas pelo mundo, como Paris, Chicago, Londres, Berlim, Disney e outras, muitos corredores apostam na idéia de que correr os primeiros 42 km em Nova York será com certeza uma estréia com chave de ouro. O casal de Natal Vanusa Barreiro, 41 anos, e Ivan de Araújo Campos Cardoso, 43, traçou logo no começo do ano a competição como o grande objetivo da temporada, mesmo sabendo das dificuldades do percurso. "Estivemos aqui ano passado para estudar e ficamos 45 dias. Para mim é o centro da terra, a capital do planeta. É uma maratona charmosíssima. E, como eles mesmo dizem, o mundo vem para cá para correr", comenta Vanusa, que é psicóloga e trabalha na Receita Federal, referindo-se ao slogan "Where the world comes to run" (onde o mundo vem para correr), que decorou as ruas de NY, com banners e cartazes espalhados pela cidade.

Com todos os comentários ouvidos a respeito da prova, o casal confessa que esperava mais dificuldade. "As subidas não são tão íngremes. E depende muito de quanto você treinou. Tudo foi maravilhoso. Estou com duas unhas que parecem uma carne moída, muita dor na musculatura, mas valeu muito. O fácil não teria graca." Já Ivan, que é médico, faz questão de lembrar que treinar com dedicação para a Maratona de Nova York foi a constatação daquilo que muito gente lhe dizia. Ou seja, o treinamento para os 42 km é muito mais difícil do que a prova em si. "Começar por aqui foi tudo de bom. Ouvimos muito que era difícil e assustou um pouco, mas ficou também mais desafiante. Depois disso aqui, tudo fica mais fácil", complementa o médico, que confessa que em alguns momentos duvidou de que iria conseguir. Fizemos em treino no máximo 32 km. ‘Será que dou conta de mais 10 km?', eu pensava. Fiquei esperando o muro dos 30 km, que não veio. O urso também não pulou nas minhas costas. Quando percebi, já estava no 38."

O preço do sacrifício por causa da dedicação aos treinos foi alto, mas valeu a pena para o casal, que tem dois filhos, um menino de 14 anos e uma menina que completou 13 anos exatamente na época em que os pais estavam em NY. "Foi um ano de muito sacrifício e um deles foi o de estar ausente no aniversário de nossa filha. Vamos levar para ela a medalha e uma mala cheia de presentes", comenta Vanusa, que fechou os 42 km no Central Park em 4h26 fazendo questão de lembrar que hoje não é simplesmente uma corredora, mas sim uma maratonista.

Tanto Vanusa quanto Ivan se emocionaram bastante ao longo do percurso e principalmente ao final da prova. "Eu me empolguei demais com o povo, que transmite uma energia que é uma loucura. Na hora que tocavam na minha mão chegava a dar choque. Você não consegue diminuir o ritmo. Ver crianças gritanto ‘Go Brazil, Go Brazil' é contagiante. Quando recebi a medalha, não me contive e comecei a chorar. Uma senhora de idade ficou me perguntando se eu estava bem, se eu estava sentindo alguma coisa. Eu só dizia que estava muito feliz e não conseguia conter a emoção. Veio um filme do treinamento na minha cabeça, de toda a batalha, das pessoas que estavam nos acompanhando pela internet em Natal", emociona-se Ivan, que terminou a maratona em 3h45 e muito feliz com o resultado obtido.

23 MARATONAS EM 2010! Nova York é o sonho de consumo da maioria dos maratonistas e é difícil imaginar alguém que tenha 88 maratonas na bagagem e não tenha corrido pelo menos uma vez na vida a mais famosa maratona do mundo. Por isso mesmo a mineira radicada no Espírito Santo Maria das Graças Bittencourt Bernardino, de 63 anos, guardou alguns de seus recursos para poder incluir esse grande evento no seu extenso currículo. "Fazer Nova York é o sonho de todo maratonista e só agora pude realizar. Aqui é um dos lugares mais caros para se fazer uma maratona e com meus próprios recursos era muito difícil", diz Graça, que completou em Nova York sua 20ª maratona em 2010 (várias abaixo de 4 horas) e chegará até o final do ano com 23 maratonas realizadas! Apesar de ter gostado bastante da prova, Das Graças sentiu bastante o frio e teve alguns problemas intestinais. "Realizei um sonho aqui, mas não foi uma boa prova para mim. Senti muito frio, principalmente na largada na ponte. Minha mão e pés ficaram dormentes. Eu estava com uma luva antiga, muito fininha. Na milha 4, achei um par de luvas jogado no chão e peguei. Aí acabou o frio. Mas depois tive alguns problemas e fui obrigada a parar três vezes para ir ao banheiro, perdendo tempo em cada parada."

Apesar da dificuldade, ela não considerou a prova difícil. "Vários colegas reclamaram de subida, mas não vi muito subida aqui. Não há como comparar a dificuldade dessa prova com maratonas que temos no Brasil, como Curitiba ou Foz de Iguaçu. Para Graça, o que lhe chamou atenção foi a excelente organização, como o guarda-volume na largada, com um caminhão para cada 1.000 corredores. "E no final a mesma eficiência, quando eu estava andando na multidão para pegar minha bagagem, e eles me tiraram da fila e minha bagagem já estava na mão", referindo-se ao grande respeito e cuidado que os organizadores têm com as pessoas de mais idade.

QUASE SEM MEDALHA. Outra brasileira que não achou a percurso difícil foi Elisabete de Jesus Mota, de 36 anos, que trabalha como carteira. Corredora há sete anos e maratonista há apenas três, essa baiana radicada em Belo Horizonte completou sua 18ª maratona e fez em Nova York seus primeiros 42 km internacionais. Embora tenha completado a Comrades (89 km na África do Sul) em 2009, em 9h03, poder correr em Nova York representava um algo a mais para Elisabete. "Era um sonho por ser a mais famosa. E, por tudo que vi aqui, essa prova é realmente o que falam."

Ela teve um imprevisto pouco antes da largada, ao ser obrigada a ir ao banheiro, perdendo a entrada preferencial na sua baia, que a credenciava a largar bem na frente, uma vez que tem 3h17 como recorde pessoal. Ela terminou em 3h23 e também não achou o percurso difícil.

Outro detalhe da prova que chamou atenção da baiana foram as milhares de pessoas nas grades para ver os corredores passar. Ela fez uma chegada emocionante, com uma bandeirinha do Brasil na mão, mas passou mal após o pórtico, com hipotermia, ficando na enfermaria até se recuperar. "Mesmo não sabendo a língua, eles logo deram um jeito de procurar alguém que conseguisse me entender."

Liberada pelo atendimento médico e na longa caminhada no Central Park rumo ao guarda-volume, Elisabete demorou para se dar conta de que faltava o símbolo mais importante daquele corrida: sua medalha. "Comecei a olhar para o lado e percebi que as pessoas, cobertas com aquele papel-alumínio, já estavam com suas medalhas. Perguntei a um rapaz onde tinha conseguido e aí, quando estava quase chegando ao guarda-volume, tive que voltar na contra-mão para tentar pegar minha medalha. Eu pensava: ‘Como vou provar que não peguei? Eles não vão querer me dar. E como eu ia conseguir me explicar?'." Mas foi entendida e o problema resolvido. "Foi um alívio. Já pensou correr a Maratona de Nova York e chegar ao Brasil sem a medalha?"

EMOÇÃO E DOR. Sabendo que o incentivo do público era o grande diferencial da festa, o mineiro João Oliveira da Silva, que é deficiente auditivo e já completou 10 maratonas, não quis perder essa grande energia vinda dos 2 milhões de pessoas que, segundo os organizadores, ficam ao longo do percurso. Cabo da polícia militar reformado, João, de 55 anos, confessa que chorou muito nos 42 km de prova. "Eu tinha a impressão que estava em outro planeta. Foi tudo novo para mim. Nunca tinha viajado de avião e nem sabia como era chegar aos Estados Unidos. Como só ouço barulho e não consigo definir o tipo de som, procurei correr bem perto da grande, junto ao público, para sentir toda a energia. Conseguia de vez em quando ouvir um ‘Vai, Brasil'. Chorei várias vezes." Machucado às vésperas da prova, João resolveu apenas curtir, fazendo a corrida num ritmo mais tranquilo e interagindo com a platéia. "Quando entrei no Central Park, cada milha era interminável. Senti câibra e parei várias vezes para fazer massagem. Quando cheguei, com 4h43, ajoelhei debaixo do pórtico e chorei profundamente."

O carioca Ike Cruz, de 43 anos, que empresaria artistas como Rodrigo Santoro e Juliana Paes, entre outros, também foi daqueles que escolheu fazer Nova York de tanto ouvir as pessoas falar. "Parecia que era uma vergonha não ter feito ainda Nova York", comenta o empresário, que começou a correr em 1988 e havia já feito três maratonas nessa sua fase ‘jovem' de atleta, todas no Rio de Janeiro. "Depois que comecei a trabalhar com moda, parei com as provas e voltei a competir somente em 2001. Embora minha preferência sempre fosse por meias, achei que tinha que arriscar uma maratona após os 40 anos."

Escolheu Berlim 2009, mas quis o destino que nada desse certo na sua reestréia. "Andei muito, nos dias anteriores e fui para a prova cançado. Fiz em 4h38 e fiquei com essa maratona esgasgada. Tinha que ir à forra", conta Ike, que, embora quisesse voltar a Berlim ainda este ano e estivesse inscrito nas duas provas, acabou optando apenas por Nova York, prova que completou em 3h52, com a sensação de missão cumprida, embora a tarefa não tenha sido das mais fáceis.

"Eu esperava menos dureza aqui e resolvi correr de última hora de short. Senti muito frio. Depois do km 30, cada batida no solo era de muita dor." E, se a Primeira Avenida, que começa na altura do km 25 é uma das partes mais emocionantes da prova para a grande maioria, para ele o longo retão pareceu uma tortura. "É uma avenida que não acaba mais. Fiquei procurando o Central Park, que não vinha, e só aí me lembrei que ainda tinha o Bronx. No km 38, pensei: esta seria uma distância boa para uma maratona."

Na subida da Quinta Avenida, se deparou com um senhor segurando um cartaz que dizia "Pain is temporaly, but the proud is forever" (a dor é temporária, mas o orgulho é para sempre). "Eu já tinha lido essa frase várias vezes, mas naquele momento pareceu que estava na hora de colocá-la em prática. Forcei o ritmo e não quis poupar mais nada, para acabar de uma vez", lembrou Ike.

HAILE E JOY. Enquanto os amadores sofriam para chegar ao Central Park e realizar o sonho de cruzar a linha de chegada em qualquer tempo que fosse, um frustrado e emocionado Haile, com a fala engasgada, deixou o mundo do atletismo perplexo ao anunciar, aos 37 anos, sua aposentaria, atitude que seria repensada dias depois. Algumas horas depois do anúncio de Haile, o mundo novamente parou para ouvir o final da história do chileno Edison Peña, o mineiro corredor, que resolveu encarar a maratona, completando em 5h40. Para Mary Wittenberg, presidente do NYRR, a história de Peña representa o verdadeiro espírito do corredor. Aquele que não vê obstáculos à sua frente e se agarra na corrida para ter a sensação de liberdade.

A Maratona de Nova York, que deu sua primeira largada às 8h30 com os cadeirantes, fechou as portas do evento quando já era noite, com 45.350 concluintes (incluindo os especiais). O cronômetro marcava 8h43 (8h04 no tempo oficial) quando a norte-americana Joy Johnson, de 83 anos, cruzou a linha de chegada e encerrou oficialmente a edição de 2010.

CAMPEÃO AOS 80

Embora todos esperassem que o Brasil brilhasse no pódio da Maratona de Nova York com sua estrela maior, Marilson Gomes dos Santos, coube a um senhor fazer mais uma vez brilhar a bandeira verde e amarela na Big Apple. O maître paulista Oswaldo Silveira foi campeão da prova na categoria 80-89 anos, com 4h33.

Corredor desde os 54 anos, Oswaldo descobriu a modalidade quando jogava futebol na várzea e, com medo de perder o lugar de titular no time, começou a correr para deixá-lo mais em forma. A primeira corrida foi em 1993, 6 km no Parque do Ibirapuera. Fez sua primeira maratona em São Paulo no ano seguinte, completando em 4h15. No mesmo ano, quando trabalhava no Hotel Orotur, em Campos do Jordão, conheceu um grupo de corredores que se hospedava no hotel para correr e o técnico que seria responsável pelo seu treinamento dali em diante, Wanderlei de Oliveira.

Em 1994, participou pela primeira vez em Nova York, fechando a prova em 4h28. Depois disso, outras maratonas vieram. O sonho de correr uma sub 4h foi realizado em 1998, em Paris, quando Oswaldo parou o cronômetro em 3h59. Octacampeão dos 10 km Tribuna de Santos e da Meia do Rio de Janeiro, o desejo de ser campeão na mais famosa maratona do mundo começou a ficar próximo quando em 2007 foi vice, com 4h13, seu melhor tempo em Nova York, considerando suas sete participações. Em 2009, foi 3º aos 79 anos e passou a sonhar o título de campeão quando mudasse de categoria.

"Wagner, um amigo que treina junto comigo, avaliou os tempos da prova e disse no começo deste ano que eu teria chance de vencer. Comecei a pensar forte nisso e fui preparado para ganhar", comenta o maître, que hoje trabalha no hotel Frontenac, também em Campos dos Jordão. Apesar do título conquistado, Oswaldo não gostou do tempo final do cronômetro. "Tive dificuldade na largada. As pessoas estavam muito lentas e tive que costurar muito para poder passar. Fiz muito zigue-zague e no km 25 senti um pouco a perna esquerda e resolvi diminuir o ritmo na entrada da Primeira Avenida para poder chegar ao final sem problemas", conta o campeão, que só soube de sua vitória no dia seguinte, com a publicação dos resultados oficiais.