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Revista Contra-Relógio

EDIÇÃO 195 - DEZEMBRO 2009

Eu sou parte dos 600K

POR YARA ACHÔA (yara.achoa@uol.com.br)

Fui, pela CR, uma das integrantes da gloriosa Equipe Imprensa no desafio promovido pela Nike, correndo de São Paulo até o Rio de Janeiro, entre os dias 22 e 25 de outubro. Aqui, um pouco das impressões de uma corredora esforçada em um universo de feras.

Correr me faz uma pessoa melhor. Correr o Desafio dos 600K SP>RJ me fez uma corredora melhor. Aprendi muito nos quatro dias de prova: interagindo com outros corredores, entendendo melhor a logística e as estratégias de uma prova de revezamento e, principalmente, me confrontando com meus limites.

Sou uma pessoa comum. Como tantas outras, luto para dar conta das inúmeras responsabilidades, para lidar com o estresse diário, para arrumar tempo para treinar e tentar me superar. Isso não me faz uma "super mulher" - prefiro dizer que sou esforçada. Para uma prova como o Desafio dos 600K, porém, só ser esforçada não bastava. Para ser convocado havia uma "nota de corte": os tempos qualificatórios para homens deveriam ser 45 minutos nos 10 km e 1h45 nos 21 km, e para as mulheres 50 minutos e 1h55, respectivamente.

Como haveria uma equipe de jornalistas para correr e cobrir a maior prova de revezamento (em extensão) já realizada nas Américas, meus tempos de corredora esforçada (que beiravam as marcas limites femininas) me colocaram lá, entre excelentes atletas amadores de todo o Brasil, muitos com marcas de 35 minutos nos 10 km. Na gloriosa Equipe Imprensa ainda estavam Harry Tomas Jr. (WebRun); Fábio Azeredo (Ativo); Iuri Totti (O Globo); Clayton Conservani e Bruno Cortes (TV Globo); Sérgio Xavier (Runner's); Eduardo Elias (ESPN); Ângelo Binder (Gazeta do Povo, Curitiba); Renato Scapolatempore (O Estado de Minas); Luciane Macias (02); Ana Paula Alfano (Diário de São Paulo) e Karine César (Corpo a Corpo). Todos são ótimos corredores, o que só fez aumentar minha autocobrança. Em uma corrida de revezamento, tudo o que você não quer é prejudicar o grupo.

POUCO DESCANSO E LARGADA COM CHUVA. Deixar tudo organizado, no trabalho e em casa, para me ausentar por quatro dias foi uma loucura. Junte-se a isso expectativa e ansiedade, o resultado foi apenas duas horas dormidas na véspera da largada. Dias antes, em um encontro da Equipe Imprensa com nosso treinador Mário Sérgio Silva, da Run&Fun, havíamos dividido os trechos que cada um faria. Eu só entraria na prova perto do km 88. Daí que, do alto da minha inexperiência em revezamentos, pensei: "descanso na van".

A van era nossa "casa" nos 600K. Dividíamos espaço com os colegas, as mochilas, o isopor para conservar alimentos e bebidas, as caixas de suprimentos... Ou seja, não havia condições de dormir naquele espaço - os descansos noturnos eram feitos nas Nike Villages (hotéis preparados para receber os atletas).

A largada na quinta-feira, 22 de outubro, cinco da manhã, foi com muita chuva. No primeiro posto de troca, arrisquei sair do veículo. Impossível. Nosso segundo atleta a entrar na corrida, o Renato, logo após seu trecho, brincou: "Quase me afoguei!"

Assim fomos indo, o dia clareando, a chuva aos poucos dando lugar a uma garoa. A corrida estava apenas começando e nos trechos iniciais não se tinha notícia de quem estava na frente - mas já dava para se ter noção de quem estaria por último nos próximos dias...

Minha ansiedade era altíssima. Havia passado quase sete horas de prova e eu ainda não tinha corrido. Meu trecho de estréia aconteceu na estrada rumo a Bertioga, ao meio dia, sol forte: 7,62 km de um retão imenso com uma leve elevação no final. O calor era matador. Mais do que nunca a cabeça tinha de trabalhar a favor. E tem coisas que considero "mágicas" no meio de uma corrida: a certa altura desse trecho, um outdoor de uma operadora de telefonia celular, parecia ter sido colocado na estrada especialmente para mim. Dizia: "Eu posso!" Li, repeti em voz alta e toquei adiante.

De volta a van, pelo Twitter, começávamos a acompanhar a briga entre as equipes que se desenrolava lá na frente: Curitiba, Filhos do Vento, Belo Horizonte, Carioca Runners, Butenas, Brasília...

Pouco antes das quatro da tarde, renovada, lá fui eu de novo. Um trecho de 7,22 km, na praia de Boracéia, com percurso em areia e terra. Praia quase deserta. Nesse momento lembrei o que alguns amigos disseram, na tentativa de aplacar minhas angústias em relação a desempenho: "não se preocupe com seu tempo, faça o melhor, mas também aproveite a prova". E ali eu corri com o coração. Feliz. Resultado: fui bem melhor do que no primeiro trecho.

Alguns colegas da imprensa eu já conhecia. Outros fui conhecendo pelo caminho. Mas com o Harry tenho uma relação especial de amizade. E a alegria que ele demonstrava ao completar cada trecho era algo bonito de se ver. Tanto que sua chegada em cada posto de troca nos 600K, desde o primeiro dia, tornou-se um "evento" - fui a responsável por alguns vídeos e muitas fotos dele nesse momento. Todo mundo parava para ver. Em tempo: Harry foi um dos nossos melhores corredores.

À noite, já em São Sebastião, tivemos jantar de massas e alguma interação com as outras equipes. Todos dizendo que o dia seguinte seria "pedreira". Deitei pouco antes da meia-noite. Às três e meia da manhã teria de estar de pé.

O MAIS DIFÍCIL DOS DIAS. A largada era sempre um momento arrepiante. Os atletas Vanderlei Cordeiro de Lima e Franck Caldeira abrilhantavam a festa correndo trechos iniciais. Nessa hora, a energia da equipe era enorme. Foi nesse dia que tive meu melhor e meu pior momento na prova.

Estávamos em último lugar na competição - o que já era de se esperar - e quando fazíamos as trocas nos pontos de revezamento só havia nossos corredores e a equipe de apoio que recolhia os cones e o tapete de cronometragem. Correr sozinha, sem aquele monte de gente que normalmente está à volta nas provas, requer concentração. Aprendi isso a caminho para o Rio de Janeiro. Meu primeiro trecho da sexta-feira, às oito da manhã, 6,51 km entre ruas e estrada, foi o melhor que fiz nos 600K - e talvez o melhor de todos os tempos. Estava focada. Ainda peguei chuva pelo caminho, experimentando uma incrível sensação de liberdade. Aproveitei cada gota. Em relação ao dia anterior, meu tempo melhorou mais de 30 segundos por quilômetro. A confiança subiu.

Mas os destaques do dia foram o Harry e a Ana Paula, mais conhecida como Apa. Ele por estar demonstrando grande resistência, sendo escalado para fazer quatro trechos. Ela, por encarar o Morro Maldito, na Estada do Rio Escuro (Ubatuba), que só pelo nome já assusta. Foi uma subida insana, com uma descida para lá de perigosa no cascalho molhado de chuva. Apa foi guerreira!

Só que depois disso comecei a me cobrar ainda mais. Meu próximo trecho, 7,69 km, a uma hora da tarde, tinha subidas e descidas. O treinador Mário Sérgio pediu que eu administrasse o ritmo. Foi um percurso duro. No final, uma subida não tão íngreme, mas longa, me desestruturou. Vi que não conseguiria completar no tempo previsto na planilha. Cheguei irritada, quase chorando. Não queria prejudicar a equipe. Não queria dar um passo atrás. Acho que tinha me entusiasmado demais com o primeiro trecho. O dia seguiu e, confesso, foi meio complicado digerir o episódio. Mas passou.

Às sete da noite, conectada à Internet na van, fiquei sabendo que os primeiros colocados da disputa dos 600k haviam chegado ao Hotel do Frade, em Angra dos Reis, nossa segunda parada noturna. A Equipe Imprensa, no entanto, estava longe. Já era noite e percorríamos um trecho da estrada sem iluminação e sem acostamento. Nosso treinador, em acordo com a equipe e a organização, decidiu que devíamos encerrar o dia ali, faltando quase 30 km, recebendo a punição que nos coubesse. E assim fizemos.

Ao mesmo tempo em que estávamos aliviados - poderíamos chegar um pouco mais cedo ao hotel, desfrutar as regalias oferecidas aos atletas e principalmente descansar -, também experimentávamos uma sensação estranha. Não era uma derrota, não era um abandono, porém incomodava. Mas lembrei de uma frase do Sérgio, em um dos e-mails trocados ao longo das semanas anteriores: "É um imenso quebra-cabeça esses 600K. Sobretudo quando a gente não tem um time realmente preparado para a exigência da prova. E não há porque se envergonhar disso. Somos jornalistas, temos dupla função, todos sabem. Portanto, vamos em frente sem choradeira, nem heroísmos". Pois é, não era hora para heroísmos.

E como as notícias - distorcidas - correm rapidamente! Já no hotel, no burburinho da Nike Village, quando aguardava minha vez para uma massagem, ouvi atrás de mim um atleta dizer ao amigo: "A Imprensa desistiu, foi embora". Virei para ele e disse: "Eu sou da Equipe Imprensa e não desistimos. Paramos hoje por medida de segurança. Amanhã estamos na luta". Mesmo assim eles fizeram piadas em cima dos jornalistas. A equipe desses corredores figurava entre as primeiras da competição, eles estavam muito bem colocados, e nós éramos os últimos. Atitude totalmente antiesportiva, que se repetiu no café da manhã do dia seguinte, quando um deles perguntou: "Vão desistir hoje de novo?" Não precisava, né?

O MOMENTO QUE VALEU OURO. Apesar de muito cedo, dava para sentir que o sábado seria quente. Pouco antes da largada, às cinco da manhã, naquele clima de descontração, troquei algumas palavras com o Vanderlei Cordeiro. Durante todo o Desafio ele foi muito simpático e atencioso com todos os corredores amadores.

Nesse dia, eu entraria em cena por volta das sete da manhã. Em um dos trechos anteriores ao meu, em uma estrada coberta de névoa, aquele movimento todo dos corredores, me trouxe uma sensação de felicidade parecida a que senti na concentração da Maratona de Nova York, em Staten Island, no ano passado. Por instantes como esses, todo sacrifício, todo esforço, vale a pena.

A postos para meus 7,45 km em estrada, para outro trecho de altos e baixos, tive tempo para mais um papinho com o Vanderlei, que acabara de cumprir sua participação. E quando parti, ouvi dele: "Vai, Yara!" Sorri... e fui! Enfrentei a subida final com o coração na boca e vontade de chorar. Desta vez de alegria.

Fôlego recuperado, fiquei sossegada. Pela nossa divisão, nesse dia eu só faria mais o trecho final, já na Barra da Tijuca.

O dia foi esquentando. O calor e o cansaço fazendo suas vítimas nas outras equipes. A Imprensa, ao contrário, esboçava uma "reação": estávamos colando nas meninas da Nike Vênus (equipe formada só por mulheres). Isso significava sair da 21ª e última colocação para subirmos à 20ª. Para nós era como se brigássemos pelo primeiro lugar! O momento chegou graças a uma brilhante atuação da Luciane, já com sol muito forte na cabeça, que chegou ao posto de troca na frente da corredora "adversária".

A festa durou pouco, é verdade. Logo estávamos de volta à lanterninha, porém com muita garra. Os trechos seguintes, percorridos pelo Harry e pela Karine, foram cruéis. Estrada em obras, a temperatura passando dos 35 graus - o que no asfalto parecia muito mais quente. Tensão em toda a equipe. Para completar, ficamos desfalcados para um trecho de 8,37 km em Santa Cruz, populoso bairro da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Foi então que me ofereci: apesar de todo o esforço dos últimos dias, estava me sentindo muito bem. O Mário Sérgio agradeceu e eu fiquei muito orgulhosa por poder dar essa contribuição ao grupo. O trecho anterior ao meu seria percorrido pelo Renato. Porém o motorista do carro que o levaria ao posto de troca se perdeu. A saída foi antecipar o trecho da Apa, que correu sob calor escaldante, tentando aliviar com um saco de gelo debaixo do boné.

Na minha vez, o treinador pediu que fosse com calma, apontando para o termômetro que já registrava 38 graus. Ele me passou também uma previsão do tempo que deveria fazer. Larguei às 15h18. No primeiro quilômetro cheguei a pensar: "Por que fui me oferecer? Não vou aguentar o calor". Logo depois, no entanto, veio aquele sentimento de comprometimento (não de cobrança) com o grupo. É claro que eu não desistiria. Aos poucos me estabilizei e completei no tempo exato que o treinador havia pedido. Olhei para ele e disse: "Sou uma atleta obediente".

Nosso sábado terminou com muita festa na chegada na Barra da Tijuca - tão grande quanto a dos primeiros colocados. Mas ainda tínhamos os 10 quilômetros finais, que todos percorreríamos no dia seguinte, na Human Race, fechando o Desafio dos 600K.

A PROVA FINAL. Por mais que possa parecer fácil correr 45 km em três dias, digo que não foi. Fiz um esforço além do normal, enfrentei percursos irregulares, lidei com ansiedade e cobrança. Mas eu, uma corredora esforçada, considero que me superei.

Os 10 km finais do domingo, no entanto, foram os piores para mim. Acho que mais difíceis até do que a primeira vez que dei de cara com o km 30 ("o muro") em uma maratona. Não pela distância, claro. Mas pelo esforço que tive de fazer para completar.

Eu parecia bem na largada, estava tranquila. Logo, porém, fui ficando para trás. Minhas pernas estavam pesadas e travadas, eu quase trotando. Segui com um pequeno grupo, ainda na frente da ambulância que acompanhava o pelotão dos 600K. Nem assim estava dando. Ameacei reagir, puxada por um "coelho", um corredor de 55 anos que entrou ali para aproveitar o percurso da prova. Desisti. Encontrei o grupo do treinador Branca, de São Paulo. E ele, muito solidário, me chamou para ir junto. Mais uma vez não deu. Pensei: "Acabou! Morri na praia". Era um sentimento estranho. Não queria parar, mas não estava conseguindo ir adiante.

Eis que atrás de mim surge uma moça, da Equipe 4any1, de São Paulo. Ela também estava com alguma dificuldade e sugeriu que fôssemos juntas. Conversando, falando da paixão pela corrida e pela vida, completamos os 10 km da Human Race, em uma hora exata. Para quem, como eu, não acreditava que chegaria, foi uma grande vitória. Mais uma vez, obrigada Sirlei Christoforo.

Pouco depois, no meio de uma conversa com amigos na festa da premiação, chorei feito criança. Uma pessoa comum, uma corredora esforçada, agora fazia parte da história dos 600K.