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Revista Contra-Relógio

EDIÇÃO 232 - JANEIRO 2013

VALE A PENA OLHAR A ALTIMETRIA?

POR ANDRÉ SAVAZONI (andre@contrarelogio.com.br)

Provas de montanha sempre têm subidas e descidas difíceis; fazem parte das características da modalidade. Mas será que olhar os gráficos divulgados pelos organizadores, com as elevações, traz algum benefício?

Ao fazer a inscrição em uma prova de montanha, você sabe que enfrentará subidas íngremes e longas (muitas vezes várias) e descidas tão ou mais inclinadas. E na maioria das vezes essa altimetria é disponibilizada pelos organizadores. Você sabe analisá-la, a ponto de definir a estratégia? Ou é melhor partir do pressuposto de que a subida estará lá e decidir na hora como se comportar com base na sensação de cansaço e dificuldade do momento, já que o piso também influencia e esses dados muitas vezes não estão tão disponíveis? Como exemplo desse detalhe, uma subida em terra batida e outra em dunas, com a mesma inclinação, são completamente diferentes.
"A altimetria é um ponto essencial em uma prova de montanha. Saber onde serão as principais subidas, conhecer o trajeto, se possível através de treinos no local, e preparar mentalmente a estratégia considero determinante, mas nem sempre isso acaba sendo possível", afirma o treinador Fábio Moralles Alonso, o Tchê, da Trainer Assessoria, de Curitiba. "No caso de não ser possível treinar no terreno da prova, o recurso é observar o mapa e a altimetria e analisar a distância e a inclinação das subidas, além do tipo de piso."
Tchê, que também corre, orienta os alunos a sempre avaliar o trajeto e analisar onde será possível correr, assim como os pontos nos quais andar acaba sendo melhor, mesmo ficando mais lento que os demais competidores. "Sempre é possível compensar em descidas e trechos planos. Mas somente é válido analisar o trajeto se a pessoa treinar corretamente para este tipo de prova, caso contrário é perda de tempo".
Corredor de montanha e treinador, Rodrigo Diegoli Rosini, de Balneário Camboriú, explica que uma das primeiras coisas que o corredor busca nas informações sobre a prova tem relação com percurso e altimetria. "O problema é que muitas dessas informações são superficiais; então, desde que você já tenha participado da mesma corrida e que o percurso não tenha mudado de um ano para o outro, você acaba descobrindo no dia que aquelas informações não foram muito válidas", afirma.
"Quando se olha um gráfico de altimetria, você vai direto aos números. Por exemplo, a maior montanha de uma prova terá 300 metros de altura, mas não se informa sobre qual terreno acontecerá nessa subida. Pode ser no asfalto, estrada de chão, areia, areia fofa, trilha aberta, trilha fechada, pode ter algum riacho no meio, enfim, diversos tipos de terreno que dificultarão ou não a sua subida", diz o treinador catarinense.
Pela vivência nas competições, Rosini sempre tenta descobrir o máximo possível sobre o percurso, conversando com corredores mais experientes ou com quem tenha participado de edições anteriores, assim como com os organizadores. "Sempre um quilômetro antes da montanha mais elevada eu costumo tomar um gel de carboidrato, independentemente do ponto da prova. Faço isso para garantir uma energia extra durante aquela subida", diz.
De acordo com Rosini, muitos treinadores admitem que estabelecer ritmo em prova de montanha é bobagem, mas ele gosta de passar uma ideia aos alunos, para tentar fazer uma subida mais calma e constante e acelerar nas descidas e nas partes planas. "Recomendo uma estratégia bem simples: corra quando der para correr e caminhe quando for preciso caminhar. Não tem muito segredo, porque é uma competição tanto física quanto mental, na qual a cada quilometro você encontrará uma situação diferente e que sempre requer muita atenção."


Vantagens e desvantagens de olhar os gráficos
Experiente corredor e treinador de provas em montanhas, Manuel Lago, do Rio de Janeiro, confirma que um dos primeiros passos é olhar a altimetria e verificar o desnível positivo e negativo, ou seja, saber "quantos metros vamos subir e descer". Aí, porém, surge a primeira dúvida: "Mas será que isso é um bom caminho? Há mais vantagens ou desvantagens em reconhecer tudo isso?" Lago separa os corredores em dois grupos: iniciantes e os em busca de performance. A receita é também completamente diferente.
Corredor iniciante: "Minha sugestão é não olhar (os gráficos). Esteja preparado para as surpresas, divirta-se com cada nova subida e/ou descida. Prepare-se para o ‘inesperado'. Assim, você diminui os níveis de ansiedade, consegue fotografar/filmar paisagens mais bonitas, desfrutando do local e tendo mais histórias divertidas para contar depois que as dores musculares forem embora."
Em busca de performance: "Deve-se conhecer o percurso todo. Quando você almeja o máximo de rendimento, saber onde dosar e onde gastar energia é fundamental. Vale a pena, inclusive, imprimir o gráfico altimétrico da prova, para saber quais subidas e/ou descidas são íngremes demais ou não. Fisiologicamente, pelo tipo de contração muscular (excêntrica), as descidas vão ‘minando' nossas pernas a tal ponto que ficamos à deriva de ‘quebrar'. Por causa disso, é importante saber quantas descidas há na prova para não exagerarmos nas primeiras, deixando para correr em um ritmo mais forte quando soubermos que não haverá subidas na parte final. Em relação a elas, é fundamental saber quando andar e quando correr. Muitas situações, como ladeiras íngremes e intermináveis, fazem nosso ritmo cair demais. Assim, acho válido adotarmos uma caminhada forte, diminuindo a sensação de esforço. Eu costumo andar nas subidas sempre que meu ritmo passa de 8:00/km."
Segundo o treinador, além de tudo isso, é fundamental respeitar a individualidade, já que cada corredor sabe onde e como quer chegar ao final de uma prova de montanha. "Cada um tem suas características psicofisiológicas e por isso deixo a pessoa decidir olhar ou não (a altimetria). Eu vou sempre olhar, pois preciso guiar o treinamento dos meus alunos com o máximo de dados disponíveis para a elaboração das planilhas."

Você olha a altimetria?

NÃO
"Parto do princípio que corrida em montanha é difícil. Ouço os comentários do quanto a prova é ‘monstro', me encho dessa invencibilidade da montanha narrada por outros que já a fizeram, mas não olho a altimetria, não quero prever o futuro. Também não vejo aqueles vídeos intermináveis com o percurso, porque quero poder desbravar, me surpreender, acabar uma subida interminável com a sensação que sou maluca por isso, que mesmo assim venci altura, inclinação, descidas íngremes e sobrevivi.
Não sou uma corredora estratégica, corro metade com o coração e metade com as pernas. Muitas vezes venci, muitos pódios vieram, muitas vezes tive a sensação de que se eu fosse estratégica e mais disciplinada, seria uma atleta ainda mais competitiva. Mas prefiro correr com o coração na ponta dos tênis, vencer a montanha e dizer que o monstro não era tão feio e, se era, rirmos juntos até o final. Os dois vencem... a ‘Mãe Natureza' e a corredora sem estratégia. Tem dado certo assim."
Simone Fukuji, de Santos

SIM
"Para mim é essencial. Como a corrida em montanha envolve características diversas durante o percurso, exige também que os atletas atinjam o melhor de seu potencial em cada trecho.
Por exemplo, tenho muita facilidade nas piores subidas, pois sou forte e resistente. Na última etapa da Copa Paulista, em São Bento do Sapucaí, havia uma subida assim, de aproximadamente 5 km e desnível de 700 m, logo no início do percurso. Aproveitei então o trecho favorável ao meu desempenho. Além disso, não sou velocista. Caso esse trecho citado fosse antecedido por um longo plano, minha estratégia seria outra, bem como, se antes tivesse uma sequência de morros menores, eu traçaria outra, e assim por diante.
A altimetria influencia ainda na minha preparação e na alimentação. Para cada tipo de prova há um treinamento específico e uma dieta pertinente. Quando a organização não oferece informações sobre a altimetria, entro em contato para obtê-la."
Elisa Mattos, de Juiz de Fora