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Revista Contra-Relógio

EDIÇÃO 159 - DEZEMBRO 2006

É possível correr uma maratona sem treinar?

POR TOMAZ LOURENÇO (tomaz@contrarelogio.com.br)

A REVISTA, ATRAVÉS DE SEU EDITOR, DECIDIU FAZER ESSA EXPERIÊNCIA PARA PASSAR PARA OS LEITORES, ESPECIALMENTE PARA AQUELES INTERESSADOS MAIS EM COMPLETAR UMA MARATONA DO QUE CONSEGUIR UM GRANDE RESULTADO

Em função de dores na região lombar, tenho restringido meus treinos a duas ou três vezes por semana, fazendo trotes por 1 hora ou um pouco mais nos fins de semana. Dia 19 de outubro acabei meu treininho de quinta-feira me sentindo bem, praticamente sem dores e não sei como apareceu um pensamento: Vou a Blumenau para divulgar a revista e acompanhar a maratona; e se eu aproveitasse para correr a prova, mesmo que devagar? Enfim, tinha sido lá minha estréia, em 1992, e agora a prova voltava ao percurso original, só que à noite, uma razão a mais para participar do evento.
Com essa idéia estranha na cabeça decidi fazer um treino-teste no sábado, dia 21, correndo durante 3 horas. Já tinha passado por algo semelhante quando de minha viagem à Europa, em março deste ano, para correr as Meias de Lisboa e de Praga, e depois a Maratona de Roterdã. Parado há exatos dois meses, devido à crise lombar, acabei não me segurando e entrei na Meia de Praga para correr alguns quilômetros, mas fui até o fim, ajudado pelo relaxante muscular que vinha tomando diariamente. E na semana seguinte corri Roterdã, mas me "policiei" e parei no km 30, apesar de sentir que poderia ter completado.

Teste final de 21 km. Assim, confiando um pouco na minha experiência e quilometragens passadas, fiz o treino-teste e consegui terminá-lo, apesar de me arrastar nos últimos quilômetros até em casa. Fiquei animado, ainda mais porque não me senti "quebrado" nos dias seguintes. Mas não estava muito seguro da minha ousadia e dessa forma, depois de dois trotes de 10 km na semana, parti para um teste final de 21 km no sábado, dia 28, corridos pouco abaixo dos 6 min/km como planejado. Então, decidi que iria correr a Maratona de Blumenau, pelo menos até o km 30 e depois completaria na raça, intercalando caminhada, se fosse o caso.
Durante a semana da prova, somente dois trotes de menos de 1 hora e lá fui eu para Blumenau. A largada foi postergada para domingo às 6 horas (ver cobertura nesta edição), o dia esteve nublado com temperatura de 18 a 20 graus e o percurso praticamente todo plano. Corri ao ritmo de 5:40 a 5:45/km até o km 30, o que me surpreendeu, mas tinha consciência de que cairia de ritmo no trecho final, talvez até tendo que caminhar.
Em função da minha performance acima do esperado, comecei a pensar que daria para fechar em até 4h15 (tempo-limite de minha faixa etária 55/59 anos) e dessa forma entrar no Ranking Brasileiro de Maratonistas, elaborado pela revista. Aí dois pensamentos foram me acompanhando, a partir do km 32: teria que me esforçar para manter o ritmo (ou cair pouco) e não sabia se a apuração seria por tempo bruto ou líquido (tinha perdido quase 2 minutos para passar pela estreita largada); por outro lado, logo após completar iria participar da cerimônia de premiação, fazendo o sorteio das 4 passagens para Paris, além de realizar meu trabalho de divulgação da CR. Ou seja, não podia chegar muito esgotado. Venceu este pensamento e resolvi correr a parte final sem me preocupar com o tempo. Fechei em 4h19 líquido.

Pela primeira vez, sem câimbra. E o que é mais surpreendente é que não tive qualquer ameaça de câimbra no percurso, nem depois da chegada, fato este que nunca tinha me acontecido. E já sofri muito depois de completar algumas maratonas, com câimbras incontroláveis até de noite. Como até hoje não se conseguiu definir formas de efetivamente evitá-las (existem suposições, algumas dezenas de possíveis causas, mas nada de concreto, como a revista já publicou diversas vezes), o fantasma das câimbras sempre aparece quando entro em uma maratona e em Blumenau não foi diferente. Por isso, não só ter completado correndo como nada sentir depois foi algo excepcional.
Então, é hora de responder melhor à pergunta do título. Até esta minha atuação, estava seguro que para entrar em uma maratona teria que fazer um treinamento específico de no mínimo 2 meses, com dois ou três longos (de 25 a 32 km). Foi assim em relação às minhas 23 maratonas completadas e por essa razão por várias vezes abdiquei de entrar em provas, por não ter me preparado como tradicionalmente imaginava ser o necessário.
Agora, chego à conclusão que quando a pessoa já tem uma boa bagagem (quilometragem, talvez fosse melhor dizer) consegue o que os especialistas chamam de "endurance", uma resistência tal que permite ousadias como a que fiz. Para aqueles que não estão preocupados com o resultado final, mas apenas em participar (e completar) uma maratona, fica a experiência.