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Revista Contra-Relógio

EDIÇÃO 233 - FEVEREIRO 2013

O MITO DA MASSAGEM PÓS TREINO E O ÁCIDO LÁTICO

POR AULUS SELLMER (redacao@contrarelogio.com.br)

Por que muitos corredores realizam sessões de massagem após um treino, seja intervalado ou longo?

O principal motivo para justificar a massagem costuma ser o auxílio na remoção de ácido láctico instalado nos músculos, que causariam as dores pós-treino, dizem esses corredores. Assim, a massagem aceleraria o processo de recuperação para encarar o próximo treino "mais inteiro".
Ao praticar qualquer atividade física, o organismo produz o ácido láctico que, dependendo da intensidade do treino ou seu atual nível de condicionamento físico, pode acumular nos músculos e gerar uma fadiga. Dentro de 48 até 72 horas o próprio corpo faz uma limpeza natural desta acidose, porém o que a maioria dos corredores pensa é que a massagem poderia acelerar esse processo de remoção do ácido láctico com movimentos fortes, contínuos e repetidos, especialmente nos músculos mais utilizados pelo exercício.
A massagem traz diversos benefícios, como relaxamento de nossa musculatura, ajuda em determinadas lesões musculares, além da sensação de bem-estar e combate ao estresse. Entretanto, não acelera a remoção da acidose após um treino nem recupera os músculos mais rapidamente.
É também errado pensar que o ácido láctico é responsável pela dor pós-treino. A confusão, na verdade, é que a dor pode ser causada pelo exagero na intensidade do treino, que pode causar o rompimento de microfibras musculares, ou seja, quando passamos do nosso limiar anaeróbio. Isso, sim, origina um acúmulo excessivo de ácido láctico nos músculos, obrigando o corredor a interromper o treino em função da fadiga.
Mesmo com diversos estudos apontando que a massagem não acelera esse processo de remoção do ácido láctico, resolvi comprovar em mim mesmo, já que tenho um lactômetro, aparelho que mede a concentração de ácido láctico. O teste foi bem simples. O plano consistiu em, num período de duas semanas, correr no mesmo horário, percurso e intensidade, 20 km com 7 dias de diferença para cada treino. Também me preocupei em realizar uma dieta idêntica.
A intensidade escolhida foi um pouco acima do meu limiar anaeróbio, pois só assim realmente poderia ter uma concentração de ácido láctico significativa. A medição do meu ácido láctico foi feita no início e no final dos treinos; e no começo e no fim da massagem.
Na outra semana, realizei o mesmo procedimento de treinos, alimentação e medição, só que desta vez não chamei o meu massagista. Fiz somente uma sessão de alongamentos após os 20 km.
Com massagem ou sem massagem, os valores da concentração de lactato praticamente não mudaram em todas as medidas, comprovando o grande volume de estudos que há na literatura esportiva. Massagem pós-treino não acelera a remoção da acidose produzida pelo exercício em nossos músculos.
O processo de remoção do ácido láctico ocorre naturalmente no organismo e a massagem não acelera a saída dessas substâncias pelo fato de desmanchar os nós musculares. Os estudos também apontam que a massagem não substitui o desaquecimento, muito menos o alongamento, que tem a função de restaurar o comprimento original do músculo, preparando toda a musculatura para o próximo treino.
Vale ressaltar que a massagem é muito benéfica. Porém, não pode ser creditada para algo em que ela não atua. Sessões de massagem trazem a sensação de relaxamento, bem-estar e ajudam em determinadas lesões musculares. E nada melhor do que uma boa massagem após um dia estressante. E fique atento aos tipos de massagens. No meu caso, gosto muito das massagens bem fortes, que tiram nódulos musculares e causam um pouco de dor durante a sessão. Mas isso não significa que seja a melhor para você.
Portanto, tenha paciência. Não tente acelerar o processo de recuperação após seu treino com sessões de massagem. Caso sinta muitas dores, repense com seu treinador (se tiver um) a intensidade dos treinos ou simplesmente reflita se seus limites estão sendo respeitados.