Histórias de um recorde
17/setembro/2011
A Maratona de Revezamento me traz algumas boas lembranças. Trabalhei por 10 anos no Pão de Açúcar, de 1998 a 2008, e acompanhei de perto o crescimento desta prova, que chega a sua 19ª edição. A primeira vez que participei estava treinando para minha primeira Maratona de Nova York, em 1997, e corri numa equipe de quatro mulheres, em que tive o privilígio de fechar a prova, que naquele ano era realizada num percurso de 10.550 m no Villa Lobos, em São Paulo.
Apesar de ter participado de todas as edições que vieram, ou correndo ou fotografando, não houve nenhuma prova que marcou tanto para mim quanto a de 1998. Naquele ano, eu havia batido meu recorde de maratona em Paris, onde corri a prova em 3h37, baixando em 12 minutos meu tempo anterior, obtido na estréia nos 42k, em 1997 em NY.
Prestes a correr novamente NY, naquele ano participei de uma equipe de 8 mulheres, montada por Marcio Milan, um dos diretores da empresa. O fato marcante daquela prova, realizada no dia 20 de setembro, foi a participacão de uma equipe portuguesa, liderada pelos irmãos Castro, os gêmeos Domingos e Dionísio, dois grandes ídolos do atletismo português.
Tive a oportunidade de conhecê-los um pouco antes daquela data, em abril, logo após Paris, por intermédio do próprio Marcio Milan e do Wanderlei de Oliveira, num evento realizado em Campos do Jordão. O currículo de Domingos Castro, que no ano anterior, 1997, havia vencido a Maratona de Roterdã com 2h07min51, era invejável. Medalha de prata nos 5000 m do Mundial de Atletismo de 1987, em Roma, tendo à sua frente nada menos do que o marroquino Saïd Aouita, Domingos já carregava também no vitorioso currículo uma 4ª colocação na final dos 5000 m dos Jogos Olímpicos de Seul, onde perdeu a chance de medalha na linha de chegada.
Domingos Castro à beira da Glória em Seul 1988 por memoriascp
Ver esse ídolo do atletismo português contar suas histórias, juntamente com seu irmão gêmeo, Dionísio, ex-recordista mundial dos 20 mil m em pista numa prova em que foi contratado para ser coelho, era uma oportunidade única, principalmente para mim, que vinha da área de fitness e estava iniciando minha história no mundo da corrida.
Um dos assuntos que mais me chamou atenção nas conversas em Campos do Jordão foi saber que Domingos tinha como grande meta o recorde mundial de maratona, que já durava 10 anos e pertencia ao etíope Belayneh Dinsamo, 2h06min50s, na Maratona de Roterdã de 1988. E, naquele mesmo dia que bati meu recorde nos 42k em Paris, Domingos havia tentado o recorde mundial em Roterdã, onde ele havia sido campeão um ano antes, mas parou no km 30, quando liderava a prova e com tempo de passagem ainda com possibilidade de recorde. Eu já sabia do fato pelos amigos, mas ouvir do próprio Domingos o relato era diferente. A frustração de ter parado ainda em ritmo de recorde dava para sentir nas suas palavras. E uma frase proferida ali jamais saiu da minha cabeça: “Passei na frente do hotel no km 30 e parei”. “Mas por quê?”, todo mundo quis saber. Mas essa foi uma pergunta que ficou sem resposta, pelo menos para mim, que não consegui identificar ali uma razão para isso.
Depois deste evento, fui encontrar os irmãos Castro e vários outros atletas portugueses no mesmo ano no Revezamento de 1998, no dia 20 de setembro, em que eles eram não só convidados de honra, mas também participariam com uma equipe de 8 atletas. Estrelas da festa, eles venceram a prova diante da antiga forte equipe Funilense, hoje BM&F. Mas não foi isso que ficou marcado na minha memória. Teve um fato ocorrido ali que jamais vou esquecer.
Logo após a chegada dos campeões, estávamos todos sentados numa mesa quando o locutor anunciou em alto e bom-tom: “O brasileiro Ronaldo da Costa acaba de bater o recorde mundial de maratona em Berlim, com 2h06min05s”. Inacreditável. O público foi ao delírio. Ainda que feliz com o resultado do nosso Ronaldinho, as pessoas que estavam ali em volta à mesa, inclusive eu, voltaram as atenções para Domingos. E vi ali nos olhos dele um sonho desmoronar. Lembrei muito da cena de Campos quando ele contou que parou em Roterdã e não conseguiu dar uma explicação plausível naquela mesa para sua atitude, mesmo estando em ritmo de recorde mundial.
Depois dessa prova, sempre torci muito para Domingos, onde quer que estivesse. Em 1999, tive a oportunidade de ver sua chegada na Maratona de Nova York, onde ele foi 2ª colocado após uma disputa nos quilômetros finais com o queniano Joseph Chebet, campeão naquele ano. Domigos deixou escapar o título de Nova York numa daquelas subidinhas ingratas do Central Park. Ao final, ele próprio disse que deixou ali o queniano escapar achando que depois pegaria. Que nada! Isso não aconteceu. Essa escapada de Chebet acabou definindo a prova e Domingos mais uma vez ficou a um degrau da glória. Bom, o tempo passou e os irmãos Castro e os outros portugueses voltaram várias outras vezes ao Brasil, sempre transbordando simpatia.
E a oportunidade de ver de perto e conviver com um atleta do nível do Domingos me fez enxergar que até os melhores têm suas fraquezas. E essa tênue linha que separa o atleta da vitória é cruel demais. Domingos foi um grande atleta e talvez um dos últimos, junto com Antonio Pinto e Fernanda Ribeiro, daquela leva de atletas portugueses que se destacaram no atletismo mundial, como Fernando Mamede, Carlos Lopes, entre outros. Na época, lembro que ele era considerado um dos poucos “brancos” em condições de bater os africanos, incluindo aí quenianos, etíopes e cia.
O tempo passou e, em 2004, tive a o grande prazer de correr a Meia de Lisboa, onde fui muito bem recebida por todos os atletas portugueses que aqui estiveram por alguns anos seguidos para participar de vários outros revezamentos. Foi uma viagem inesquecível, coroada com um recorde pessoal nos 21k, que dura até hoje. E, acredite, cheguei uma posição à frente de Domingos. Mas essa é uma outra história e quem sabe um dia ainda conto aqui.
Postado em: Aconteceu por aí por Fernanda Paradizo às 20:31
Uma resposta para “Histórias de um recorde”
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Iberê, em 21/setembro/2011 às 16:04 diz:
Belo relato, Fernanda! Acho que vou mudar de hotel em NY…