Revista Contra-Relógio

André Tarchiani Savazoni é jornalista, pai e corredor. Está sempre na corrida. Seja nos treinos, nas provas ou atrás dos filhos, Vitória e, principalmente, Pedro. E adora viajar para correr ou correr para viajar.

Boston se tornou ainda mais Boston após o atentado. Para que outra morte?

15/maio/2015

Boston é daqueles locais que você chega pela primeira vez e sente que sempre esteve lá. Ao deslocar-se a pé ou de transporte público por uma cidade praticamente sem ter de pedir informações ou olhar o mapa (ou GPS nos tempos atuais), a sensação é de familiaridade, de sentir-se em casa. De conhecer os restaurantes, as pessoas e saber onde comprar algo, supérfluo ou de primeira necessidade.

A Maratona de Boston é, para mim, a única certeza ano após ano. Não sei que provas irei participar, mas sei que terei de trabalhar bastante para estar lá de novo. É assim desde 2011, quando busquei o índice pela primeira vez. Estive na prova de 2012 a 2015. A viagem já está programada para 2016. Boston, do que já vi no mundo das corridas, é única. Uma paixão ao primeiro olhar e que, com as descobertas, convivência e cumplicidade, foi se tornando amor. Pela cidade, pela corrida, pelo ambiente, pelas pessoas que a fazem dela tão especial, geração após geração.

Ver crianças de 4, 5, 6 anos correndo para te cumprimentar em um dia gelado, de vento, chuva, como no último 20 de abril, é algo único. E elas estavam ali para torcer. Aprendendo desde cedo com os pais. Pais esses que também aprenderam com os pais… e temos então, geração após geração perpetuando a festa, a celebração, a alegria por receber corredores de todo o mundo para dias festivos, alegres, inesquecíveis.

Essa festa grandiosa também teve um momento trágico. Também, infelizmente, inesquecível. O atentado à bomba na linha de chegada em 2013 abriu feridas enormes, fez escorrer o sangue do espírito de Boston. Deixou mortos. Me fez chorar. Muito. Até hoje faz. Eu já tinha terminado a prova, estava no restaurante, almoçando. Não há como imaginar que pouco mais de uma hora antes, eu poderia estar lá. Ou a Mari, que estava do outro lado da rua, esperando a minha chegada. Ou poderia ser Pedro, meu filho, no lugar de Martin Richard, de 8 anos, uma das três vítimas fatais (além de 264 feridos)…

Boston sofreu, sangrou, o ambiente, por uma semana, ficou tenso, comovente, doloroso… mas Boston se tornou ainda mais Boston. A cidade se uniu. As pessoas se uniram. A festa em 2014 foi ainda mais bela. Fiz questão de levar meus filhos, Pedro e Vitória, para também aprenderem com as gerações que há mais de 100 anos ajudaram a transformar a maratona local em uma prova única.

Hoje, ao ler o noticiário norte-americano com a sentença de morte de morte a Dzhokhar Tsarnaev, de 21 anos, condenado pelas explosões (agiu ao lado do irmão mais velho Tamerlan, que morreu em confronto com a polícia durante a perseguição, enquanto eu ainda estava em Boston), a sensação foi estranha. De que o sangue volta a escorrer em Boston. Para que outra morte? Não é muito “simples”? Não “facilitaram” as coisas para o responsável? Deveria, sim, ter sido obrigado a ficar em uma cadeia pelo resto da vida… que seria bem longa. De preferência, com fotos das pessoas que ele matou nas paredes.

O promotor Steven Mellin pediu para Tsarnaev uma sentença de morte por considerar que ele queria “matar tanta gente quanto fosse possível”. “O acusado pôs uma mochila atrás das crianças e esperou… Ele não se importava em matá-los (…) porque já tinha chegado à conclusão de que matar inocentes estava justificado”, afirmou. Tudo isso é verdade. Não discuto ponto algum. Vivenciei toda a história. Mas o lema criado em Boston, o Boston Strong, tornou-se muito mais forte do que isso. Fica, então, repetida a questão: para que outra morte?

Foto: BAA

Postado em: Crônica, Maratonas, memória por André Savazoni às 17:55
5 comentários »

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