Revista Contra-Relógio

André Tarchiani Savazoni é jornalista, pai e corredor. Está sempre na corrida. Seja nos treinos, nas provas ou atrás dos filhos, Vitória e, principalmente, Pedro. E adora viajar para correr ou correr para viajar.

// Na Corrida/

Crianças e adolescentes voltam a sonhar por meio da corrida de rua

27/dezembro/2016

Histórias de superação, de quem mudou de vida por meio da corrida, emagreceu 30, 40, 60 quilos ou muito mais, melhorou a saúde e deixou de tomar remédios proliferam, inclusive muitas contadas mensalmente. O esporte, realmente, tem um poder transformador e, muitas vezes, agregador. Porém, pode ser ainda mais. Principalmente para quem, mesmo com poucos anos de vida, o simples fato de pensar em um futuro melhor não é nem uma possibilidade. O ato de sonhar é negado. O atletismo, a corrida de rua, vem sendo utilizada com sucesso como uma forma de inclusão social, de recuperar a dignidade em muitos casos, para crianças e adolescentes em situação de risco na cidade de Guarulhos.

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Iberê, idealizador do Projeto Sua que é sua Foto: Arquivo pessoal

O projeto “Sua que é sua” foi desenvolvido por Iberê de Castro Dias, juiz titular da Vara da Infância e da Juventude Protetiva e Cível de Guarulhos. Mas como o próprio Iberê diz, para simplificar, Juiz da Infância já dá conta do recado e da explicação. O interessante que foi a própria característica heterogênea e agregadora da corrida que o levou a pensar em fazer algo mais com o esporte do que percorrer quilômetros na ponta dos tênis ou do trabalho que exerce. Ele mesmo explica como tudo começou.

“Basicamente, em uma corrida, comecei a pensar no caráter inclusivo do evento. Observando ao redor, eu não fazia ideia de quem eram as milhares de pessoas que estavam ao meu lado na largada. E parecia haver uma certa cumplicidade coletiva ali. Como se todos estivéssemos no mesmo barco. Tirando uma meia dúzia da elite, não tem ninguém contra ninguém ali. Parece que está todo mundo em uma tarefa coletiva. O cara do seu lado pode ser pobre, milionário, fraudador de imposto, monge… O fato de todos terem que se esforçar praticamente do mesmo tanto faz com que ninguém meça ninguém, não há olhares atravessados, de reprovação, de medo do outro, nada disso, o que é tão comum nos ambientes públicos do dia a dia”, afirma Iberê.

AR DE REPROVAÇÃO – O juiz lembra, por outro lado, que as crianças e adolescentes acolhidos estão quase sempre sob a mira dos demais. Elas não escolheram estar ali, por sinal, não fizeram qualquer coisa para isso. “Não é raro que olhem para eles com ar de reprovação, com cara de mau, do tipo ‘desafasta, desafasta’, ‘não vem, não’. Mesmo professores da rede pública praticam atos repugnantes de discriminação contra eles. Assim, comecei a pensar que corrida de rua poderia ser uma forma de conjugar inclusão social com atividade física. Estariam em um ambiente saudável (o que infelizmente é raridade para muitos deles, que fazem uso de drogas ou que começam a se encantar pelas aparentes facilidades do crime) e em um momento de total integração social, com milhares de pessoas. Não seriam olhados de esguio, não ouviriam deboche e, reforçando, ainda estariam praticando atividade física”, diz Iberê contado que um dia, em uma audiência, perguntou a um garoto de 10 anos quando ele faria aniversário. O menino não soube responder, não tinha nem ideia do que seria isso.

Dessa forma, o que era apenas uma ideia começou a ganhar corpo. O calendário esportivo ajudou. Haveria uma prova de rua em Guarulhos, organizada pela prefeitura, de 5 km e 10 km, em dezembro de 2013. “Resolvi pedir inscrição e levar os que estivessem dispostos. Na primeira, apareceram 12 (dois deles vieram diretamente do baile funk, muito provavelmente tinham bebido e usado drogas; não importa, naquela manhã, ao invés de estarem chapados dormindo, como faziam em todos os ‘dias seguintes’ dos bailes funk, estavam praticando atividade física). Muitos deles não tinham sequer tênis para correr. Asics e Nike arrumaram os pares de que precisavam, alguns amigos doaram camisetas, shorts, e fomos”, afirma Iberê.

A realidade, então, provou que o projeto tinha possibilidade de ganhar corpo. Realmente, poderia ser algo positivo no trabalho de inclusão social. “Percebi que eles gostaram da experiência e resolvi continuar. Costumamos contar com a benesse de organizadores que arrumam inscrições para determinadas provas e, aos poucos, vamos seguindo. A ideia passa longe de ser ‘formar atletas’. Quero apenas que seja uma forma de trabalhar inclusão social, atividade física e consciência corporal. De melhora da autoestima que, no caso deles, não sem razão, costuma ser bem baixa”, completa o juiz.

ABRIGOS MUNICIPAIS – O perfil das crianças é diferente, mas as duras e tristes histórias acabam sendo muito próximas, parecidas. Todas vivem ou viveram em abrigos municipais. Às vezes, voltam para a família, mas continuam participando dos eventos, das corridas. Por sinal, esse é um tema também importante, normalmente, eles têm família. Estão acolhidos porque parentes os deixaram em situação de risco. Esse acolhimento é quase sempre temporário. “O ideal é que eles fiquem acolhidos apenas o tempo suficiente para eliminar a situação de risco (tratar a família, investigar outros parentes que tenham condição de assumir a guarda ou colocá-los em uma família substituta-adoção). Quanto menos tempo, melhor. Mas, às vezes, ocorre de eles ficarem anos acolhidos (porque a família se desinteressou, não há parentes conhecidos que queiram a guarda, nem interessados em adotá-los)”, diz Iberê. Por esse motivo, o total de atingidos pelo projeto não tem um dado fixo, um número. Varia conforme quem esteja acolhido já que a população das casas de acolhimento é flutuante.

Dessa forma, nesse cotidiano que não é simples nem de fácil solução, no momento da atividade física, das corridas, eles se tornam iguais, podem agir, ou melhor, correr e se divertir, pois estão totalmente integrados ao ambiente, não são vistos como “diferentes” ou como uma “ameaça”, um “risco”, nem com “reprovação”, o que os faz evoluir e voltar a sonhar com um futuro que alguns quilômetros atrás, parecia tão inalcançável. “Nas provas de 5 km e 10 km, levamos os adolescentes de 14 ou 16 aos para cima, depende do regulamento do evento. Já as crianças vão para as provas infantis”, reforça o juiz Iberê, comprovando na prática que ações que parecem simples podem ser tão grandiosas e que o esporte, o atletismo, a atividade física, quando bem trabalhada, tem realmente o poder de mudar vidas.

Postado em: ação social por André Savazoni às 19:00

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