Revista Contra-Relógio

Yara Achôa é jornalista, mãe e corredora. E depois de sua maratona sub-4, vem se achando a tal! Ama correr no asfalto, mas também adora uma aventura na montanha.

… a Maratona do Rio e Zélia Duncan…

6/julho/2012

Nunca corri a Maratona do Rio, vivo “ensaiando”, mas ainda não dei o passo definitivo.

Só corri a Meia Maratona – distância também oferecida dentro do evento Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro, que vai rolar no próximo domingo.

Acho que é uma das provas mais bacanas do Brasil. Gostaria de estar lá, mas dessa vez não vai dar.

Muitos amigos irão. E uma ilustre corredora também: a cantora Zélia Duncan. Pelo menos foi o que ela disse durante um recente evento, do qual eu participei, cujo tema foi corrida e superação.

Na conversa, ela mostrou um sentimento de paixão pela corrida parecido com o que eu também tenho. Dei risada com algumas de suas tiradas e repeti internamente “comigo também é assim” várias vezes.

Em homenagem a todos que vão correr a Maratona do Rio, segue aqui os melhores momentos da Zélia Maratonista.

Sobre como começou a correr

“Fui jogadora de basquete profissional, mas parei de jogar faz muito tempo. Segui a carreira artística. Fui cantar. Minha vida mudou. Um dia resolvi jogar de novo, míope, mais velha, mas ainda com a memória da garotinha esportista. Liguei para umas pessoas, arrumei uma quadra. Primeiro foi um desespero para colocar a lente de contato. E também não estava preparada para correr tanto. Não corria há um tempão. Briguei com todo mundo… Vi que pra arrumar quadra, gente, alguém pra apitar era difícil… É muito complicado pra vida que eu tenho arrumar tudo isso. Aí comecei a querer correr.

Eu tinha horror por corrida. Vivia dizendo isso. Mas eu moro no Rio, cidade bonita, gostosa de correr. Uma amiga do bairro disse que eu devia correr um pouquinho. Comecei a correr cinco minutos, andava rápido, corria mais cinco minutos, me sentia muito cansada, parava. Aos poucos fui aumentando a distância e comecei a tomar gosto. Tem um momento que vai dando prazer. Quando corri 2 km direto foi… uau! Depois foram 5 km. E então comecei a querer correr 10. Aí uma amiga disse que ia me inscrever em uma meia maratona. Virou um sonho pra mim. Aprendi o que era o prazer de treinar. Comecei a levar tênis, relógio, roupa de corrida para as cidades que eu tinha show”

Sobre corrida e prazer

“Quando você começa a correr é desespero, sente a perna pesada. Até você descobrir o prazer. Aí eu digo para mim, eu sou saudável, eu tô viva, posso fazer isso. E vou correndo, 10 km, 15 km… 20 km. Aí eu vou dizendo ‘o que é que eu tô fazendo aqui. Por que eu estou aqui?’ Mas o prazer volta em dobro quando eu termino”

“Eu digo que agora eu canto pra sustentar esse vício. Virou uma coisa séria, momento quase de meditação, só meu, de extremo prazer”

Sobre medalhas

“Adoro uma medalha. Significa que eu consegui chegar. É importante esse símbolo”

Sobre mantras na corrida

“Eu li um livro muito bacana de um japonês chamado Haruki  Murakami (Do que eu falo quando eu falo de corrida). Ele corre muito, já fez ultra. Em determinada parte ele conta que antes dele começar a correr, assistiu a uma entrevista com grandes maratonistas, falando que eles tinham mantras, frases que eles repetiam durante a corrida.

É claro que eu e meus amigos desenvolvemos mantras. Tem um amigo que corre assim ‘é campeão, é campeão’. O meu é assim: ‘o que são 10Km dentro de uma vida, o que são 10km dentro de uma vida…’

Mas o pior é quando aquelas músicas horríveis grudam na sua cabeça, você não consegue parar de cantar dentro da cabeça…”

Sobre longas distâncias

“Quanto mais velho você fica, parece que a corrida fica melhor. Parece que a gente tem mais paciência. Eu estou com 47 anos. Não me imagino com 25 anos correndo 30 km. Eu ia ficar muito nervosa. Tem quem tenha o dom. Eu não, fui desenvolvendo. E tem que ter paciência, descobrir o prazer”.

Sobre corrida e música

“Corro com músicas que me dão alegria. Música triste pode me derrubar”

Sobre ser reconhecida quando está correndo na rua

“Outro dia estava correndo no Rio, um cara passou de carro e gritou para mim: ‘Ô, Zélia Duncan, entra aí, eu te levo…’”

“No Recife, véspera de um show, levantei cedo, coloquei minha roupinha de corrida, meu relógio… Estou lá correndo. Uma pessoa começou a correr junto e resolveu puxar papo: ‘te conheço de algum lugar… você poderia…’ Eu respondi de imediato: ‘agora não, eu tô treinando…’. Depois passou outro e disse: ‘aí Zélia, adorei seu show’. E eu: ‘pô, mas eu não cantei ainda…’”

Sobre maratona

“Como amadora, dentro de uma prova imensa como a maratona, o que senti é que o corpo vai, vai. Quando passa 32, 33 km, seu corpo começa a dizer assim ‘não foi isso que a gente combinou. Você não vai parar?’ Você tem que ter uma força mental muito grande. Em um certo momento parece um castigo. Mas quando você chega tudo se justifica, tudo é bonito, está tudo certo”

Sobre sua primeira maratona, em Chicago, 2010

“Tem uma história hilária nessa primeira maratona que corri, em Chicago. Fui com o Drauzio Varela, meu grande amigo, tive o prazer de ir com ele. E também com uma amiga mais jovem, super corredora – a gente a chamava de bip-bip, ela completou a prova em 3h28m. E ainda uma amiga que mora em Chicago, que nunca correu, e resolveu treinar para a maratona. A considero uma pessoa muito corajosa. Ela se preparou para fazer em seis horas, para completar. E estávamos lá, caminhando para a largada. Estávamos emocionados, aquela multidão caminhando… Eu com vontade de chorar. Aí a mãe dessa minha amiga que mora nos Estados Unidos ligou do Brasil. Ela falou com a mãe, chorou. E a gente só vendo ela falar assim: ‘não, mãe, está tudo bem, pode deixar…’ A mãe dela disse para ela ‘Minha filha, liguei para dizer para você que não precisa ganhar não…’ Corremos os 10 primeiros quilômetros às gargalhadas.  Ela fez em 6h20. Seguiu a risca o que a mãe pediu”.

Em tempo: Zélia completou os 42,195 km de Chicago em 5h10m34s.

Postado em: Atualidade, Entrevista, Gostei!, Histórias, Motivação por Yara Achôa às 17:47
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