Revista Contra-Relógio

Yara Achôa é jornalista, mãe e corredora. E depois de sua maratona sub-4, vem se achando a tal! Ama correr no asfalto, mas também adora uma aventura na montanha.

// Eu corro porque…/

… desbravei a Ponte Rio-Niterói …

20/abril/2011

Antes de começar o relato, aviso: se eu for levar em consideração o tempo final, perdi e perdi feio o “Desafio dos Achôa”, brincadeira que criei entre meus irmãos que também correram uma Meia Maratona recentemente. O Carlos fez a Meia da Corpore (SP) em 1h58m; o Alfredo fez a Meia de Santiago (Chile) em 1h57m; e eu fiz a Corrida da Ponte (RJ) em 2h13m.

Mas levando em conta que eu corri na Ponte Rio-Niterói, com longas subidas e sob uma temperatura que beirava os 40 graus, acho que estamos equivalentes. Cada um teve o seu mérito :)

RIO 40 GRAUS

Às sete da manhã, na concentração em frente ao MAM, em Niterói, o sol já mostrava que não estava para brincadeira. Minha intenção era fazer os primeiros quilômetros a um ritmo de 5’50”, diminuindo aos poucos até chegar a metade da prova e ver como estaria me sentindo, para então manter ou acelerar. O plano A era terminar os 21,4K da Corrida da Ponte abaixo de duas horas. Mas ao longo do percurso foi preciso acionar um plano B, C, D…

Larguei cheia de adrenalina. Os dois primeiros quilômetros, antes de pegar a ponte, foram exatamente iguais: pace de 5’35”. Sabia que estava acelerada e diminui, encaixando em 5’40” nos próximos três. Foi no quilômetro cinco – assim como aconteceu nas duas vezes que corri a Volta da Pampulha, também sob forte calor – que me passou pela cabeça desistir.

Embora eu estivesse indo bem até ali, o sol começou a minar minha energia. Não era falta de condição física, mas algo que abalava o psicológico. E não teve a ver com o fato de eu ter saído um pouco mais forte.

Nos dois quilômetros seguintes, já em subida, consegui ir mais devagar. Mas logo depois uma descidinha animou e eu fechei o oitavo em 5’14”. Completei os 10K em 58 minutos e comecei a achar impossível a sub-2. O plano B entrou em ação: terminaria em pelo menos 2h04.

Com a sensação de estar em um forno, decidi que não iria me matar. Um tempo excelente não daria para fazer mesmo, então a ideia passou a ser manter seis minutos por quilômetro. Por volta do quilômetro 10, parei para tomar o meu carboidrato gel tranquilamente, bebi água, descansei um pouco e segui adiante.

O trecho mais complicado foi do quilômetro 12 ao 18. Nesse pedaço, fazendo algumas contas com o pouco de capacidade de raciocínio que ainda me restava, o plano C passou a ser fechar por volta de 2h08m.

Tentava de tudo para me distrair. Mirava um corredor e buscava chegar até ele; andava um pouco e apreciava a paisagem; pensava que quanto mais rápido eu fosse, mais rápido eu terminaria aquele sufoco; pensava nas pessoas que eu amo e que estavam me esperando; pensava que havia perdido a “disputa” que criei com meus irmãos; repetia meus mantras de motivação (“eu sou forte, eu tenho foco”); tentava enganar minha mente dizendo que o dia estava fresco e eu não estava sentindo calor…
Cheguei a rezar!

E o sol cada vez mais forte. Vi muitos corredores sofrendo, alguns sucumbindo ao calor e precisando de atendimento médico. Por um instante fiquei com medo de ter um apagão também.

Se de longe a ponte impressiona, de perto, desbravando-a a pé, ela parecia não terminar nunca. A essa altura, o plano passou a ser simplesmente chegar. Um papo rápido com outro corredor, por volta do quilômetro 19, foi salvador. Por quase dois quilômetros, não vi o tempo passar.

Já reconhecendo as redondezas do Aterro do Flamengo, local da chegada, o que eu tinha de fazer era me livrar daquela expressão de sofrimento e sorrir para as fotos. Nem dei sprint. Aliás, olhei no cronômetro e reduzi para chegar em exatas 2h13m.

Depois da corrida, o que mais se ouvia era “foi a prova mais difícil que já fiz”. Sim, foi bem difícil. Mas foi boa demais!

No final, acho que até não fui tão mal. Estou percebendo que gosto de provas que exigem de mim mais do que condição física. Essa coisa de trabalhar a resiliência – capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças – é muito legal e importante para a vida.

QUE VENHA A VOLTA À ILHA

Pois é, daqui 10 dias estarei em Floripa. Este ano com a equipe ASICS TIGER, formada por amigos jornalistas. Por gostar das montanhas e curtir o gênero “quanto pior, melhor”, provavelmente farei o Morro Maldito. Mas isso é assunto para outro post.

Postado em: Atualidade, Depoimento, Gostei!, Lugar para correr, Prova, Relato por Yara Achôa às 16:44

17 Respostas para “… desbravei a Ponte Rio-Niterói …”

  1. Yara!
    Acho que quase todas pessoas que correram se sentiram assim. O percurso novo, as condições climaticas(péssimas) e até a ansiedade de cada corredor durante a espera desta corrida atrapalhou. O tempo de todos que conheço foi maior do que o esperado. Mas na verdade participar desta corrida valeu para testar o nosso foco, a capacidade de resistir em nome de um objetivo. Valeu!
    E voce foi muito bem. Parabéns!
    bjs

  2. Fui nessa corrida tambem e senti tudo que vc relatou.Meu tempo foi 2h48m,e os dois dias seguidos super pifada.Hoje, já tou boa para outra.VAMUQVAMU ;.

  3. Imagina correr sob todas essas adversidades relatadas com a panturrilha estourada desde o KM3?
    resultado = muita dor! Dizem q a dor é fraqueza saindo do corpo – então… não ficou nenhuma no meu rsrsrsrsr
    Abs!

  4. Oi querida guerreira…
    realmente essa prova deve ser “porreta”… Correr no calor não é comigo não.. acho que não daria conta.. lembro da Volta da Pampulha em 2007, um calor infernal que quase tive um piripaque….
    Essa prova deve ser boa no inverno… quem sabe ano que vem eles não mudem a data para uma época mais amena!

    Parabéns querida.. sou sua fã!

    bjs
    Jacke

  5. É queridíssima Yara, Parabéns pelo seu esforço, pois todos sem excessão precisaram se “matar” para concluir, o calor foi realmente de amargar. Agora vamos nos preparar para a Volta a Ilha… que também promete. Bjs e boa Páscoa!

  6. Se não vai na técnica, vai na raça! Parabéns pela garra e disposição!

  7. Eu corri mal a prova. Tava supergripado. E a partir do 12ºkm comecei a ter dor de barriga. Me senti lento, pensei que fosse ser dos últimos. Terminei inteiro fisicamente, mas com cólicas infernais. Depois de ir ao banheiro químico acho que eu encarava voltar e fazer de novo, mas já era. No entanto, depois de ler tantos relatos – e o seu é uma base muito boa dada a sua ótima fase, baixando tempo e chegando muito próximo aos meus próprios recordes pessoais – to começando é achar que fui muito bem. A tal da resiliência é um negócio inato em ti, pelo jeito. Esse ressurgir da fenix ajuda muito em provas longas e dá uma confiança legal. Tá mal? Aguenta mais um pouco que passa! Pra muitos não rola, mas pra você, sim!

  8. Parabéns Yara, vc foi guerreira atleta!

    Muito interessante seu relato sobre essa díficil prova! Assim alguns de nossos atletas que farão em 2012, já treinam para tal desafio… muito calor e ladeiras, isso não é pra qualquer um…
    Um grande abraço e obrigada!

  9. Teve uma hora da prova, que ao comparar com a 1/2 Internacional de Agosto, eu fazia a conta de que com mais 40 minutos igualaria o meu tempo, mas eu preferi escolher completar apenas, e meu tempo foi detonado em mais 17 minutos.Descobri hj que usei o tenis errado, visto que as cores são parecidas, usei um tenis com 1/2 numero americano menor, assim foi inevitavel a dor no é esquerdo, a mesma dor que incomodou em Agosto de 2010.Meu tempo de Domingo: 3h 14 min, cheguei entre os 40 ultimos guerreiros.
    Acho que mentalmente mais forte para a 1/2 do Rio em Julho de 2011.
    Agradeço ao apoio de meus amigos antigos e os novos que surgiram em cada kilometro de desgaste.

  10. Esse desafio foi desleal, nada se compara À PONTE! Nunca sofri tanto. Já que não vou a ILHA, vou procurar uma prova no DESERTo, deve ser bem mais fácil que a ponte. hehe
    Parabéns pela superação, certeza que se tiver ano que vem de novo será com vento contra nos 20 kms. hehe
    Beijos, bons treinos e boa Volta a Ilha!
    Colucci
    @antoniocolucci

  11. Kkkk, quanto mais difícil, melhor! Rsrsrsrs. Essa é boa! Parabéns pela determinação, pelos mantras e pelo pensamento positivo! Parabéns por esta dura prova! Bjs. Bom finalzinho de Páscoa!

  12. Oi querida! Você arrasou no relato. Pena não nos encontrarmos dessa vez. Prova dura, muito mais psicológica do que física. Foi um grande teste para enfrentar as dificuldades, e o bom que saímos vencedores. Parabéns! Boa prova em Floripa! bj

  13. Yara, você foi muito bem.
    Nós desistimos de fazer essa prova por ter perdido o primeiro lote, aí o preço ficou abusivo demais.
    Já que não participaríamos da prova resolvemos fazer um treino de Copa x Aterro e aguardar a chegada dos nossos amigos Baleias, corredores derretidos e extremamente felizes.

    Bjs e que a Volta à Ilha não seja fácil, visto que você gosta mesmo é de desafios :)

  14. Yara, Parabens! Acompanho suas provas pelo site e pela revista e cada vez mais me impressiona! Boa sorte na volta à ilha!

  15. Puxa que 10!!!
    Boa prova em Floripa… queria muito correr lá um dia!
    Abraço, Marluce

  16. Yara,
    imagino como foi sua prova na ponte porque a comparei com a Pampulha de 2010. Calor superior a 35 graus e muita umidade quebram qualquer um. Parabéns pela persistência e pelo preparo físico, pois sem ele vc teria se juntado aos desmaiados no caminho. Na Pampulha pelo menos não faltaram estes casos tristes de exaustão total.
    Eu decidi que calor extremo nunca mais!!!
    Abração.

  17. Oi Yara, estou esperando para ler seu post sobre o Morro Maldito. Eu tbem debutei no morro esse ano (sou da equipe do Pavao que vc encontrou no hotel). Só quem sobe o morro entende porque ele tem esse apelido ‘carinhoso’. A vista lá de cima e a sensação de dever cumprido na chegada foram inexplicáveis. Cheguei radiante e super feliz comigo mesma, foi uma das minhas corridas mais recompensantes! Abraços.

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