Revista Contra-Relógio

Vicent Sobrinho é jornalista e desde que correu sua primeira corrida de rua, em abril de 1979, nunca mais parou. Dos 100 m à Maratona, já fez mais de 500 provas.

// Corrida viva//

Ida sem volta na Corrida da Ponte

19/maio/2012

Edson Bergara e Laercio de Carvalho disputando os ultimos quilometros da Corrida da Ponte em 1981 -Reprodução

Caro amigo e corredor já está perto o momento da largada e como dizem nos dias de hoje: “Todos juntos e misturados” – Lá estaremos com o indicador no pino do relógio esperando o disparo para a largada e adentrarmos na ponte partindo de Niterói com o objetivo de chegar ao Rio na busca da sensação inigualável de vencer os 21.600 metros. Para alguns é correr para conquistar melhores tempos e recordes pessoais, mas para a grande maioria é – sinônimo de superação e força de vontade esbanjada num diferente percurso, que só é possível percorrê-lo uma única vez por ano, no dia da Corrida da Ponte – foi assim idealizado por Yllen Kerr, que se inspirou nas pontes da Maratona de NY para criar em dezembro de 1981 essa enigmática Corrida da Ponte tem sido assim desde as primeiras edições até o resgate da prova no ano passado pela Spiridon,  para que milhares de corredores possam voltar a percorrer o inusitado trajeto.  Contudo, além dos estreantes, alguns corredores que atravessaram a ponte ainda no início da década de 80, estarão lá novamente.

Luiz Antonio e Ronaldo da Costa - Maratonistas campeões reconhecem Edson Bergara como o pioneiro do Brasil na modalidade

E um deles, muito especial, o qual tenho a oportunidade de contar sobre esse  das corridas nos anos 70/80 um dos responsáveis por desbravar as primeiras provas de longa distancia, não só por ter subido nos pódios de muitas delas, mas, principalmente por ter colaborado com sua simpatia e arrojo pela popularização das Meias e Maratonas no Brasil. E lógico, ele correu e subiu no pódio de duas primeiras edições e volta agora para prestigiar o evento.

Todos na balsa... retorno só a pé ! A única oportunidade do ano para correr na Ponte Rio Niterói

O dia que vi Bergara …  estava no lugar mais alto !!

O nome dele é Edson… Mas, todos só o conheciam apenas pelo sobrenome: Bergara, esse paulistano contou-nos que começou a correr quase sem querer. “Lembro que tinha 14 anos, foi em abril de 1974 quando fui convidado por um colega que só me chamava para jogar futebol, mas, daquela vez era outra a parada, era para participar de uma corrida juvenil de 7k. E olha que corri prá valer e estreei ganhando.” Foi dessa forma que Bergara provou o gostinho da corrida de rua e logo de primeira percebeu que levava jeito para o atletismo, sua principal característica era ser muito rápido logo na largada, esse era o momento que disparava e já procurava se distanciar dos demais. “Quem quisesse que viesse atrás!” Relembrou. Cinco anos mais tarde, o então adulto e competidor maduro Bergara foi um dos primeiros corredores a ter um patrocínio fixo e por mais de 10 anos contou com uma grande seguradora financiava suas viagens pelo Brasil. “Essa foi a justificativa de eu ter competido tanto. Eu tinha o privilégio de poder escolher correr onde quisesse no território nacional, para isso além de um bom salário eu tinha avião e motorista no aeroporto me esperando para levar e retornar da competição. Corri por todo o Brasil, se uma cidade fazia aniversário e tinha corrida. Lá eu estava na largada.” Essa foi a explicação de Bergara de como chegou a juntar mais de dois mil troféus em trinta anos de carreia.

Quem o viu correr, com certeza aplaudiu suas conquistas e disputas, pois, Bergara era frequente nos pódios nas corridas de rua e também desde as primeiras maratonas, quando os 42k  começavam a se popularizarem no Brasil e por estar em todas elas era admirado, tanto por quem estava correndo quanto por aqueles que o assistiam nas provas durante os anos de 70, 80 e 90 fato que transformou Bergara numa espécie de ídolo, era reconhecido por corredores e dirigentes de sua época.  A verdade é que todo e qualquer participante de corridas de rua entre 1972 e 1989, desde um simples corredor até os atletas recordistas brasileiros como José Romão e Eloi Schleder ou também os campeões da São Silvestre, José João da Silva e João da Mata ao ouvirem o nome Edson Bergara logo o associavam corrida e as duras disputas que seriam travadas. “Bergara era osso duro de roer, mas era também um exemplo de humildade e lealdade com quem tive a honra de disputar inúmeras competições”. Recordoua João da Mata campeão da 2ª edição da Corrida da Ponte.  E foi diante desse gigante da corrida de rua que numa entrevista o denominei como: Bergara – O AUDAZ – e a opinião rapidamente foi dividida e confirmada nas diversas conversas que tive com vários corredores, técnicos e jornalistas que acompanharam sua história, e foram convictos ao afirmarem: “Ele era especialista em correr provas com mais de 20 kms, quando não vencia Bergara ao menos garantia lugar no pódio”. Observou o técnico Wanderlei Oliveira.

Edson Bergara também foi o terceiro atleta brasileiro a baixar os 30 minutos nos 10.000 m, foi em 1979 que marcou o tempo de 29: 45 segundos. Também representou diversas vezes o Brasil no exterior. “Sou da época que era proibido receber premiações em dinheiro nas corridas. Eram tempos de ditadura militar. Eu estava sempre bem ranqueado e era frequentemente escalado para representar o país no exterior pela CBD – a Confederação Brasileira de Desportos, o que me proporcionou correr nos cinco continentes”.
Em novembro de 1980 Bergara fez sua estreia na Maratona do Rio; o americano Greg Meyer venceu e ele foi o segundo e por ter sido o melhor brasileiro foi convidado a correr a maratona de Honolulu no Hawaí. “A minha primeira maratona no exterior; era uma maratona de ida e volta,  era em milhas e eu não estava acostumado com a marcação. A maratona largava às 6 horas da manhã chovia muito durante o percurso, fiquei contente pois, venci o recordista olímpico Frank Shorter, que foi o 4º colocado”.  Essa prova consagrou Bergara, pois conquistou o recorde brasileiro com 2:19:23, apenas 21 dias depois de correr a maratona carioca. A Maratona do Rio era patrocinada pela Atlântica Boa Vista Seguros, para quem Edson Bergara passou a correr. “Foi nessa época que comecei a ganhar dinheiro e ter oportunidades para competir no exterior; recebia o equivalente hoje a seis mil reais por mês”. Edson correu a Maratona de Boston e em Nova York e Frankfurt. Em 1989 fez sua última participação em maratonas no Rio, quando foi o 5º colocado com 2h19. Bergara gosta de relembrar as conquistas na Maratona do Rio. Embora detentor de um vasto currículo, com vários títulos brasileiros em Maratonas, sendo por diversas vezes o primeiro brasileiro ranqueado e vencedor de inúmeras corridas,  a maioria dos milhares de corredores brasileiros da atualidade nada sabe sobre quem foi Edson Bergara.  Afastado das corridas há mais de uma década, atualmente com 59 anos continua com o mesmo biotipo de épocas áureas do atletismo,  e nos conta aqui algumas histórias de sua carreira vitoriosa. Entre elas, duas participações na Corrida da Ponte. Fui terceiro em 1981 e vice campeão em 1982, não podia ser diferente disso pois a primeira edição vencida pelo Laércio Carvalho de Lima em 1981, tive fortes dores no joelho e na segunda em 1982 vencida pelo campeão da São Silvestre João da Mata. Tenho uma explicação para isso, eu treinava para bater o recorde brasileiro de Maratona, e na época, muito diferente de hoje,  eu corria muitas prova e maratonas, demais até, e foi no espaço de 14 meses que corri 10 maratonas, e mais de 40 corridas de rua,  então não havia mesmo como brigar com o levíssimo Laércio que pesava 44 quilos e surpreendeu todos não só por ser especialista em provas rápidas, mas por ter vencido descalço numa temperatura de 35 graus, com um rápido João da Mata, que tinha uma espetacular chegada, tanto que seria campeão da São Silvestre no ano seguinte .”

Bergara sempre de bom humor e descontraído, sempre teve o hábito de tomar um cafezinho antes das largadas e dos treinos.  Recentemente passou por uma dura prova, a mais difícil de sua vida, uma cirurgia que durou 6 horas para retirada de um câncer alojado bem próximo a bexiga. Foi convidado pela Spiridon como homenagem por toda sua história e vida dedicada as corridas de rua do Brasil.

Na próxima edição o percurso já não mais contará com a perimetral… Quem correu o percurso original…. correu….

Postado em: Atualidades, Depoimento, Eu estava lá!, Historia da corrida de rua, Maratona por Vicent Sobrinho às 8:03
2 comentários »

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