A agonia da São Silvestre
5/setembro/2011
De todos os textos que lí sobre a mudança de percurso da São Silvestre, foi o do amigo Gustavo Maia o que resumiu muito bem o que eu vinha sentindo – até por sermos da mesma geração e de termos vivido histórias parecidas: a mudança da São Silvestre é uma derrota emocional. Gustavo é jornalista, chef, organizador de provas, corredor e hoje toca uma agência de publicidade em Jundiaí, a Release Propaganda. Sua postagem, a segunda de seu blog recém inaugurado, está reproduzida abaixo, com sua autorização.
“Outro dia me perguntaram qual era a minha primeira memória esportiva. Era uma derrota… . Não sei se por conta dos valores e significados que um evento como esse representam para um menino de seis anos, ou por realmente se tratar da minha primeira desilusão amorosa, afinal, a bola era o meu grande amor… mas a verdade é que a tragédia do Sarriá me marcou profundamente e delimitou minha vida de torcedor de futebol. Naquela tarde, em meio a um banquete de esfirras caseiras que minha avó tirava do forno, aprendi que nem sempre o melhor vence. Enquanto o desespero da família tomava conta da sala de televisão, aprendi que era possível ser encantador, ser brilhante e, ao mesmo tempo, perdedor. Nos minutos finais da partida, enquanto Zoff espalmava para escanteio as esperanças do tetra, me ensinaram a ascender vela e a rezar – que absurdo – e então eu aprendi que Deus não ligava para futebol, ou era italiano.
Mas não é dessa lembrança que queria falar. É de uma outra, da mesma época. Sempre gostei mais de reveillon do que de natal. Mesmo quando menino. O natal tinha presente, mas o reveillon na minha casa tinha festa! E das boas. O dia 31 de dezembro começava com caixas de frutas chegando, bebidas no gelo e um aroma de pernil que dominava a casa. Mas para um garoto de seis, sete anos, antes da contagem regressiva e da hora em que ia todo mundo pra piscina – geralmente causando cenas impagáveis – vinha a expectativa de quem seria o campeão da São Silvestre. A festa parava. Tudo para ver o vencedor cruzar a linha de chegada. Era uma tradição. Lembro com muita clareza do dia em que João da Mata levou a prova em 83. “O brasileiro ganhou… esse ano promete!!”, profetizavam, embalados pela certeza que só o álcool proporciona.
Lembro também das vitórias de Rolando Vera, o equatoriano baixinho que voava Brigadeiro acima. Deixava o pelotão para trás na tremenda subida, como se os outros carregassem sacos de pedras nas costas. Era uma época em que os quenianos ainda conviviam pacificamente com os leões de seu país. Logo – depois da revolta das feras – eles passariam o tempo todo fugindo dos felinos e tornariam-se mestres insuperáveis na modalidade. Em 89, Vera ganharia novamente, já à luz do dia. Parece que foi ontem: “como perdeu o charme a corrida”, comentavam. E realmente tinha perdido. Não mais fazia parte do ritual de entrada de um novo ano. A pergunta: “quem ganhou este ano?” passou a fazer parte da festa da virada. E a corrida ficou ali, esquecida no meio da tarde.
No ano passado, quase 30 anos depois de chorar com a tragédia do Sarriá, corri minha primeira São Silvestre. Venci os 15 km da prova – não mais os 12.640 que deram a glória a João da Mata – e me emocionei quando percebi que a Brigadeiro tinha ficado para trás sem deixar seqüelas. Ao entrar na Paulista, acelerei o passo e me senti Rolando Vera, costurando adversários. Apesar da luz do dia, a visão da Avenida Paulista emoldurada pelo prédio da Gazeta me fez viajar no tempo e lembrar daquelas emoções de criança. A medalha já estava em casa (a organização da prova achou melhor entrega-la antes para evitar confusão na linha de chegada!!….??????) mas a tradição envolvida naquela chegada me bastava.
Pois é. 2010 vai entrar para a história. Não por ter sido a minha primeira vez. Mas por ter sido a última da corrida na Av. Paulista. Por razões que envolvem o trânsito, mas principalmente a festa da virada que atrai multidões embaladas por axé e calipso, a chegada da São Silvestre foi levada para o obelisco do Ibirapuera, onde também termina Maratona de São Paulo, e outras corridas de menor expressão. E a corrida, que já estava esquecida na tarde… será mais uma entre outras, privada de seus espectadores fiéis, afastada da sombra de seu idealizador Cásper Líbero. E assim, com essa mudança, encerram-se alguns ciclos. O do esporte na principal avenida da capital. O da Brigadeiro como temível subida (já que agora ela também será uma descida). O meu em São Silvestres. Mas principalmente o da corrida mais charmosa do País e sua tradição. O novo trajeto, assim como foi a mudança de horário, é um corte profundo na alma do esporte. Por ele sangram nossas memórias. E assim aprendemos a deixar de amar o que amávamos. Esta é uma derrota da qual me lembrarei no futuro… até me esquecer.”
Postado em: imprensa por Sérgio Rocha às 13:30
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