Revista Contra-Relógio

Sérgio Rocha é viciado em correr há mais de 10 anos. Além de ser editor de arte da revista, também atua como repórter da CR para justificar seu vício.

Reencontrando os 30 km

14/maio/2012

Da madrugada da sexta para o sábado chovia muito em Jundiaí, cidade onde moro. Acordei algumas vezes durante a noite e ouvia o som incessante da chuva. O sono estava leve, pois teria de acordar cedo para um treino de 30 km – o mais essencial no planejamento da maratona que pretendo correr, a de Porto Alegre, no dia 3 de junho. Há quase um ano não fazia um treino desses.

Pensei comigo: “Começar o treino na chuva é dose, mas não tem jeito. Esse treino não posso ‘pular’ “. O alarme tocou às 5:50 da manhã. Na cozinha preparei dois ovos fritos e emendei um prato com banana amassada com chia, pólen desidratado e cobri tudo com mel.

Me vesti, peguei o GPS, os sachês de gel de carboidrato (GU de baunilha – meu sabor preferido) e uma troca de roupa. A chuva já estava mais leve e não me molhei muito ao tirar o carro da garagem. Decidi fazer o treino em um circuito de 10 km na Malota, uma espécia de bairro-condomínio daqui da cidade. A Malota fica ao lado da Serra do Japi, que acaba proporcionando um ótimo visual e sensação térmica sempre um pouco mais baixa do que na “cidade”.

Quando fiz meus dois melhores tempos em maratonas – 3h36 (PoA 2008) e 3h47 (Punta del Este 2009) – treinei nesse circuito. Ele tem duas subidas fortes (uma no km 3 e outra longa no km 7) que dão muita confiança, principalmente quando você completa as famigeradas três voltas. É um treino duro. A sensação de completar foi sempre de sofrimento seguido de vitória pessoal – bem parecido com o que sentimos quando completamos a maratona.

Comecei o treino com chuva e um pouco de frio, que em cinco minutos desapareceu. Os primeiros 10 km foram tranquilos (5:45) e do km 12 ao 17, tive a companhia do amigo João Theoto. O ritmo já tinha aumentado e achei “engraçado” estar me sentindo tão bem. Fechei a segunda volta com 5:35 min/km de média. Quando comecei a terceira, lembrei das sensações dos treinos que já tinha feito por lá: “Essa é a hora que as subidas ficam mais inclinadas”. Só que o ritmo estava bom e a temperatura, ótima.

Faltando quatro quilômetros para o final do treino, um outro amigo correu um pouco comigo – o triatleta Maurício Gobbi. Fomos correndo e conversando, num ótimo ritmo e fomos em direção a minha última subida. Completei o treino absurdamente bem, fisicamente e psicologiamente também, com 5:35 min/km de média. “Nunca antes na história desse país” um tinha corrido 30 km tão tranquilos. A sensação era de que eu poderia correr o resto do dia daquela maneira. Em geral, eu terminava comemorando dando socos no ar e com o corpo dolorido. No sábado, eu simplemente sorria.

Uma vez vi uma entrevista do ator Hugh Grant no “Inside the Actor Studio” em que ele disse que odiava se ver na tela pois ele se achava péssimo. Então foi perguntado por que então ele atuava. Ele respondeu algo assim: “Porque eu sou excelente nos ensaios. Tem uma magia que ocorre quando estamos ensaiando que me faz tentar melhorar sempre. Queria um dia ser nas gravações o que consigo ser nos ensaios.”

Para mim, houve uma magia. Pouco me importa como será a Maratona de Porto Alegre, no dia 3 de junho. Há diversos fatores que não posso controlar, como a temperatura. Mas sábado, eu me reapaixonei pela corrida e pela imprevisibilidade do que passamos nos treinos.

Vou treinar sempre para que o que ocorreu comigo sábado volte a acontecer.

Postado em: Maratona, Rumo à PoA, Treinamento por Sérgio Rocha às 14:19
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