Revista Contra-Relógio

Sérgio Rocha é viciado em correr há mais de 10 anos. Além de ser editor de arte da revista, também atua como repórter da CR para justificar seu vício.

Educação não tem gênero

6/fevereiro/2012

Quando fui participar da etapa de Mairiporã da Copa Paulista de Corridas de Montanha (leia aqui), também fui pelo pela fama de cordialidade dos participantes, de ambiente diferenciado, etc.

Me diziam que há mais camaradagem, como ajudar outro corredor a passar por algum trecho mais “casca” e aí por diante. E é verdade, presenciei coisas assim.

Mas foi exatamente lá em Mairiporã que passei pela situação mais inusitada nesses 10 anos que participo de provas.

Havia um trecho em que só dava para passar um corredor por vez – para se ter uma idéia, era impossível correr em linha reta. Era uma espécie de veio, em que às vezes se corria no meio, e por vezes, com as pernas se equilibrando nas beiradas. E nesse caso, não há o que fazer. Mesmo que tenha alguém mais rápido do que você, a pessoa tem que esperar o caminho abrir para poder fazer a ultrapassagem. Ou quando é possível, você vai um pouco mais para o lado para dar passagem, o que não era o caso.

Estava lá eu, me esforçando para correr quando ouço uma voz: “Dá para passar?” Fiquei surpreso com a pergunta e o tom áspero, pois não foi nenhum “Com licença” ou “Posso passar, por favor?”. Foi mais para um “Dá-para-passar-porque-você-está-muito-devagar-e-está-me-atrapalhando?” Respondi quase de bate e pronto: “Assim que der, você passa”. O trecho era complicado, não tinha como dar espaço. E foi  então, que a corredora voltou à carga: “É só abrir!”.

Ok, pois não. Parei, subi um pouco na “cratera”, me apoiando em uma árvore e disse “S’il vous plait“, gesticulando com a mão. E lá foi a corredora embora para parar 300 metros depois em uma fila imensa, pois todos teriam que escalar um trecho complicado e escorregadio.

Minha diferença para a corredora era de uns 6, 7 corredores, todos na fila da escalada. Ela olhou para trás e eu disse: “Dá próxima vez, é só pedir por favor, que te dou passagem com o maior prazer.” Ela respondeu sorrindo: “Mas eu pedi licença…”. Respondi negativo com minha cabeça.

E então, o surpreendente acontece. Ela vira para o amigo ao lado e fala: “É só porque eu sou mulher.”

Comecei a rir, e disse para uma garota que estava do meu lado: “Ela não entendeu. Eu só pedi educação e ela acha que fiquei irritado por ser ultrapassado por uma mulher.”

Sou ultrapassado por mulheres em todas as corridas que participo e acho o máximo. Minha mãe, já falecida, era feminista de carteirinha e me abriu os olhos paras muitas coisas. Quem me conhece, sabe que não tolero sexismos, assim como também não tolero falta de educação.

Educação não tem gênero.

ps: para piorar mais ainda a situação, descobri no final da corrida, que a educadíssima corredora correu de pipoca, e ainda usou os serviços de massagem pós-prova. Pode isso, Arnaldo?

Postado em: Causo, Educação por Sérgio Rocha às 18:13
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